terça-feira, 30 de dezembro de 2014

sem título

Mas o que se pode fazer quando o amor é negado? Cabe-nos apenas, resignados, conviver com a ausência aterradora, e a espera de um dia acordar e sentir retirado o pedregulho de cima dos órgãos, pois ás vezes parece mesmo que vamos sucumbir em uma espécie de afogamento seco. Mas passa. É um erro comum atribuir eternidade a todo tipo de afeto e seu reverso, e se, em alguma instância a eternidade existe para nós, seres vulgares, está impressa em algum aparato da memória do mundo, mas sujeita ao desacordo e trânsitos que são inerentes ao próprio, sabe, mundo. Ao amor negado, só resta a melancolia, quase mortal, mas que se dissipa, a qualquer momento: indefinido. E quando acontecer, aquele choro sentido vai ser lembrado com certa graça, como um evento distante, um eu descolado. E a ausência, caracteristicamente irresolúvel, cede um pouco de seu espaço, sabe, para o amor: o novo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Pavanas

5,6,7,8
Meio giro/encontro
demi-plié
sorriso.

Meu e seu

Port de Bras
quarta fechada
erro: mãos no rosto
Repreensíveis no palco
no palco, mas ali.
Deram-se as mãos?

Não.

5,6,7,8
Um pas de deux mal ensaiado
marcações de lugar
Fouette/nos olhos/peso peso peso peso
Despacito
Alguém disse: 5,6,7,8
Attitude: não só nas pernas
Convoca o corpo: Abdômen abômen abdô, abaixa o externo! abaixa o externo! abaixo o externo!

A B A I X A O E X T E R N O

Abaixa. Mas eu te vi. AA1 BB1
Ritmo: 5,6,7,8
((((((((((((golfadas de ar: )))))))))))))
Era quase emocionante, juro que sim
SABE AQUELA COISA, de ritmos internos?
Pulsações cardícadas/retorno intravenoso
escapam décimos de segundo 5,6,7,8
imperceptíveis
o eram, eram sim.


Tan dan dan Tan dan dan
valsa de cravo
pas de Boureé, sempre para a esquerda
E então:



(por ora sentemos, fiquemos sem os sapatos)
((Só por ora,sentemos e fiquemos sem os sapatos))
(((instantes só, para não sujarmos o chão de rua)))
((((e de avenidas e de alamedas desbotadas de outono))))
(((((é mais suave:5,6,7,8)))))


Ninguém me disse mas essa é a contagem errada.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Conversas de celular

Ela: do que chamar?
Ele: pinto
Ele: pau
Ele: pica
Ela: caralho
Ela: Nossa!
Ele: quanta graça!
Ela: Que obsceno
Ela: Não entendo
Eles e Elas: O que?
Ela: E se é inominável?
Ele: então os dois o são

Silêncio

Ela: o que se pode dizer?
Ele: Tem quem se ofenda
Ele: o meu sempre foi assim
Ela: Assim como?
Ela: Assim com nome?
Ela: Assim do jeito que vi?
Ele: Assim
Ele: do que falam?
Ela: de inomináveis
Ele: Dos que saltam pra fora
Ela: Dos que são pra dentro
Ela: E se disser: racha?

Silêncio

Risos

Ele: Que obsceno!
Ela: quanta ousadia
Ela: colocar nome?
Ele: dizer o nome?
Eles e Elas: PRONUNCIAR
Ela: assim, audível
Ela: assim, legível
Ele: quanta graça!
Ele: meu corretor corrige as falhas
Ela: de português?
Ela: das coisas: buceta vira brusqueta
Ele: Corrige o que tem que ser corrigido
Ela: o que não deve ser falado
Ela: nem escrito
Ele: nem nomeado: só no escuro

Eles e Elas: Olhem só! Achamos fotos!
...baixando arquivos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Viagem de ônibus

Não subi isenta naquele dia no ônibus que me traria de volta: e subi os degraus com um tom cômico de quem quer virar e sair correndo, sabe? correndo numa ânsia ÂNSIA de gritar, gritar muito uma alegria, um êxtase violento rasga-pele um riso alucinado e rodar e rodar e rodar e rodar e rodar mas não rodei, nem gritei só subi com vontade de descer e sentei do lado de um cara que não era o cara que eu queria sentar do lado, era um cara qualquer, e naquele momento qualquer um que sentasse não seria quem eu queria que sentasse porque ELE estava lá em alguma parte rodando e eu que quis tinha então que aguentar esses qualquer um que mandam mensagens avisando que estão voltando, li tudo, meticulosamente e corrigindo as sentenças daquele português que não era o português que tanto me fazia tremer de felicidade, a boca que tanto dizia coisas que me atrapalhavam: justo eu que nunca me atrapalho, estava ali querendo descer, o tempo inteiro, quase disse para o motorista parar, mas iria atrapalhar a viagem de outros 30 e tantos que queriam mesmo voltar, e eu não atrapalho, devia só voltar, quieta e feliz, rever minha cama e ouvir minha música favorita de todos os dias que não pude ouvir, ou não precisei: na verdade esqueci, e não lembro qual era a minha música favorita agora: sei só que nunca odiei tanto a estrada e quis que o ônibus tombasse pra eu sair correndo, sei lá por qual caminho, quais são os caminhos que nos levam pra casa? Adeus, e lá em casa alguém entenderia se dissesse que lá não é mais lá, porque eu quis descer do ônibus e quis me plantar na rodoviária como aqueles personagens de filme que esperam alguém vir buscá-los e tomam um café quente, que eu nunca tomaria pois odeio café? mas nesse momento até este sacrifício valeria: o café seria doce, e eu repetiria comigo é doce, é doce e é doce, sem saber o que era enfim, tão doce que me valesse os centavos gastos em um prazer de assistir o ônibus ir embora sem mim: olha lá onde eu não estou, o coração palpitando forte acenando para o banco vazio. Mas não foi o que aconteceu: subi, sentei e fui, sem estar isenta, com um velho conhecido entre as mãos, o burburinho das mil mariposas invisíveis, isso que há muito não se apresentava, que ressurge sempre sem nome: ou que apenas não ouso falar, carregado entre o umbigo e a coxa, fazendo cócegas que dão vontade de chorar baixinho com um meio sorriso para não o acordar, o cara do lado que estava sim muito feliz por ter subido no ônibus. Sussurrei no seu ouvido, entende? Para compartilhar qualquer coisa, que queria ter descido, mas acho que ele não se importou.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Cabelos

Doía naquele ponto de sempre, na lateral direita do crânio, meio atrás do olho querendo escapar para a orelha (ou pelo menos era assim que tentava explicar para os muitos médicos quando lhe pediam para localizar a dor (( certa vez lhe dispuseram até um crânio, e pediram que cravasse com uma agulha a parte do cérebro que parecia doer, mas não lhe pareceu lógico que fosse algo no cérebro, em definitivo)), e incerta respondia, meio débil: entre olho e a orelha). Como se o bumbo de uma sinfonia rugisse dentro da caixa craniana, tentava se distrair do mal estar tão conhecido, esticando com as pontas dos dedos um cacho um tanto ressecado de seu cabelo que já não se entendia loiro-ruivo-castanho. Achava, com uma ingenuidade sincera, que seus cachos eram fruto de sua mente enrolada, e por isso seu cabelo nascia da forma que nascia: pensamentos revoltos, elétricos e espiralados, impossíveis contra qualquer pente fino. Sentia quando iam nascer, os fios, e lhe irrompiam da cabeça como se estivessem se empurrando e, lânguidos, se enroscassem com outros no seu mar de ideias confusas, que, quando sucumbiam à força do mundo, despencavam cadavéricos no chão, já não tão enrolados: retos em alguma certeza que foi abandonada: nunca olhou para trás, a vassoura de palha empurra tudo pra fora junto com o pó (mas são sombrios os fios que insistem em aparecer durante a manhã depois de um sonho intranquilo, em cima do travesseiro). De resto, pacientemente esperava que a dor passasse, e nunca disse para os doutores, mas tinha certeza que sua dor era disso, dos fios se empurrando, agora, o que era esse fio, ou fios, mechas inteiras que lhe faziam doer exatamente nesse ângulo de encontro entre olho e orelha, vista e ouvido, entre a enxerga e a escuta...Sabia que o lado direito cuida de qualquer coisa relacionado a, o que mesmo? Lado simbólico? Religiosité? Mas não era uma mulher (?) uma mulherzinha (?), uma moça (?) uma

- garota

uma garota da lógica?

: Tinha resposta pra tudo, mesmo que seus fios denunciassem a incongruência de seus pensamentos. Só não tinha pra tal da dor que insistia, religiosamente, em pulsar, como se quisesse abrir espaço no crânio com um martelo, bem ali, entre o olho e a orelha. Chegou a fantasiar que era uma mariposa, com o negrume do mundo nas asas, que estava se empurrando do casulo-osso formada pelas sinapses, pronta para debandar, uma grande mariposa negra saindo dos cabelos, ia pousar leve, ruflando as longas asas anoitecidas, uma noite sem ponto de luz (talvez um carrapato de strass apenas, preso por um breve acaso do mundo) fazendo uma saudação. Mas isso não faz sentido, assim como as pílulas de Frei Galvão que tomou antes de dormir, três de uma vez só, o papel-pílula-oração, e agora estava ali, com a cabeça doendo no ponto entre a vista e o ouvido, com overdose de pílula benta: sê cuidadoso, pecador, com seus pensamentos. Santa misericórdia, como acreditar em papel escrito: seja ele do Frei, do Freud ou do Rimbaud.

A essa altura, já virava o rosto contra a parede, fingindo fazer graça. É que doía,naquele pontinho entre a enxerga e a escuta, uma vontade de cegueira e surdez. Ou o contrário?


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Aos navegantes

E agora me pego com água transbordando dos olhos, algo parecido com choro mas que não o é: é marejamento, a prática de limpeza que extirpa por todos os orifícios o que insistia em não abrir espaço: é diferente do choro, pois é como se o choro lidasse com algo que ainda está colado, e esse marejamento lida com o que já descolou (se o olho fosse do avesso daria para enxergar que a ausência deu lugar a qualquer coisa espacial vibrátil que não espera mais nada e se crê, um pouco pretensiosa talvez, suficiente do seu grande nada: fica dobrando as bordas do abismo para fazê-lo menor. Por fim, coloca-o no bolso e cantarola Chopin engasgando nas notas difíceis). Os romanos tinham um hábito, e diga-se de passagem os romanos eram um povo engraçado (não só os romanos, tinha mais gente engraçada na história do mundo) os romanos (mas creio não ser exclusividade), os romanos (nunca sei se romanos ou Romanos, e de quais (R)romanos falo, pois, tinham os que eram romanos e os que foram conquistados que talvez fossem menos romanos ((há uma escala de romanidade?)), como os da Galícia, por exemplo) os romanos tinham uma coisinha chamada  de lacrimatório, no qual marejavam ou choravam dentro e o abandonavam nas sepulturas de quem fora dar uma volta do lado de lá. Uma vez me deparei com um destes em um museu quando pequena, e achei que guardavam as lágrimas para temperar comida: havia algo de boticário naqueles vidrinhos, mas não entendia que provinham, em grande parte, não do tempero, mas da destemperança: por achar isso, experimentei chorar sobre o prato de comida uma vez e senti as tripas revirando da angústia que voltava pra casa: a casa da qual havia sido expulsa. No fim, entendi que, chorando ou marejando, as lágrimas são para o abandono: vide que despencam em um movimento suicida e espatifam-se nas mais variadas superfícies, manchando papéis de cartas, legitimando o infortúnio da despedida ou da desmedida: a voracidade com que devoramos nossos afetos: ‘ai de mim’ ressoa a boca e umedece os fundilhos de quem lê. Mas digo tudo isso porque hoje meus olhos marejam, e não choram, marejam em uma enxurrada líquida e sem peixes sentindo descolar, descosturar, desatar, desmanchar, desabotoar e tudo o que é inverso ao que o verbo se propõe, todos os excessos que carrego como uma roupa fora de estação. E como tudo o que rompe é dolorido (há melancolias tão físicas quanto um quebrar de costelas), nesse exato momento me pego marejando o oceano interno (espero o momento de chegarem os seres abissais) e assisto evaporar gota por gota do que na garganta parecia tão sólido, erro comum: confundir o estado das coisas.  Sinto que no meio disso tudo houve algo de choro, mas se me escapou. Por ora marejo.



Caso alguém escorregue em mim derramada por ai, é que navego de dentro pra fora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O teatro da memória

Tenho uma tia, muito querida, que adorava ensinar essas pequenas/imensas coisas da vida. Ensinou até os dias que pôde: não que a morte a tenha levado de braços dados para qualquer lugar inférnico, mas acho que em dado momento da vida, houve o ensejo de parar e não fazer mais nada além de ensinar a si mesma: são esses equívocos da memória.
Detalhista,talvez fosse a palavra maior para descrever a tia Norma: detalhista. Enxergava além da miopia cotidiana e possuía, sabe? Alguma lente mágica que captava coisinhas desapercebidas nos outros e até mesmo nos espaços: a falha do dente, a migalha de pão, o esmalte comido na ponta da unha. Nada assim, metafísico: era na gente mesmo, os pormenores. E repetia com a sabedoria de um gato quando olha a janela que eram nessas falhas que se podia captar a falta de caráter (sempre desconfiei do que ela realmente queria dizer com isso). Dizia sempre, que tínhamos que prever as olhadas furtivas e estarmos sempre preparados para surpreender, para criar assim certa graça para quem olha. Levantava-se majestosa e na meia volta que dava com o corpo, dava para espiar um band-aid colado no cotovelo, cheio de bichinhos. Logo nosso olhar se encontrava de volta e me presenteava com uma piscadela cúmplice, como uma criança travessa que esconde o doce dentro do armário. As unhas, sempre cor de areia, mas em uma, especialmente, uma listra escarlate. Na blusa, o ponto ápice de sua aparência, um melancólico botão costurado, único na imensidão do tecido que lhe descia até os quadris. Mas o melhor para mim, e meu estômago se revirava para tal momento, era o tal do brilho que ela passava no colo. Esparramava glitter, purpurina, ou sei lá que era aquilo, e arrematava com uma gota de perfume. Retirava-se cintilante pela porta deixando aquele rastro de luz artificial pelo caminho, e eu, pequena, me encolhia na poltrona da sala da minha vó, ansiosa para o momento do retorno. Horas sentadinha para o momento em que visse girar a maçaneta, e uma tia Norma cansada da noite apareceria risonha arrancando a blusa no meio da sala, os seios já flácidos derrubando o remanescente de brilho no chão: e caíam como qualquer coisa mágica, girando em órbita no mamilo que resistia cansado à gravidade, pousavam leves no chão empoeirado que ela havia esquecido de varrer. Era um espetáculo.

Explanação

E é porque havia muita gente entre eu e o outro que a espinha dorsal enrijecia como que anunciando a chegada do inverno; e é porque haviam murmúrios escapando pelas rachaduras da sala de estar para o apartamento vizinho - que se punham atentos às inundações secreciosas: escapando de sistemas que convocam o corpo em seu todo - que se fez um abrigo embaixo dos lençóis onde a claridade bate à porta da trama de algodão e se vê obrigada a dar de ombros, a iluminar qualquer esconderijo menos banal como um canto, onde as arestas se beijam em suas perfeitas proporções; e é porque as curtas distâncias entre as casas, ruas, bairros e cidades reajustam-se em medidas incompreensíveis as quais escadas lhe empurram pra cima baixo seu calcanhar sujo: negando-se a amparar o peso, que termina à margem de um salto no escuro: um mergulho em caixas de areia. E é por isso que tosse com a garganta arranhada das mil vozes-espinhos que escalam os tubos digestivos-respiratórios ansiosas para aflorar na prometida primavera, cuspindo pétalas púrpuras de flores que já murcham pela espera; e é por isso que penteia-se na esperança de que fio a fio que se solta, vá desnudando a cabeça branca da cascata que esconde o rosto que já mostra os sinais dos primeiros vincos, consequência da frágil construção de seu lirismo, uma docilidade empalagosa, incapaz de lidar com a força do mundo: cavoca-lhe o ventre com a delicadeza de uma peste que espera o momento certo de estourar desavergonhada de sua mórbida obra; e é porque havia muita gente entre o outro e eu que distorceu as imagens do encontro em seu jardim de espelhos.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O dia que eu briguei com um mendigo por causa de uma cadeira

Ele nem era tão mendigo assim, caso contrário, uma centelha de bom senso teria me invadido naquele momento do mundo em que o vi carregando a minha cadeira em cima da carreta improvisada. O que ele não queria entender, o egoísta, é que, se ele tivesse me deixado ficar com uma, UMINHA, ele teria mais cinco cadeiras para ser feliz! Mas quis levar tudo, o troglodita malfeitor, e me deixou ali na calçada tristonha a sonhar com espaldares trabalhados e assentos de couro. Era uma cadeira daquelas que a gente só vê no lixo mesmo, quando alguém se cansa de guardar velharia e troca por uma de design mais arrojado, sabe, modernoso (tenho uma vizinha que adora falar modernoso, se sente super modernosa falando modernoso) e nem se importa de jogar tudo fora. Era uma tarde ensolarada quando as encontrei ali na Rua Noruega, no cafona e equivocadamente rico bairro do Jd. Europa. Estava ali nas minhas andanças trabalhais fotografando a casa dos ricos pra falar mal deles depois (atividade divertidíssima: engajar-se a denunciar o mal gosto estilístico da velha elite que, inconscientemente copiamos adquirindo a versão mais barata e ridícula nas lojinhas do bairro: no meu caso, no lixo), quando as vejo: recém abandonadas perto da lixeira de uma casa que não se podia ver o fronte, pois era religiosamente guardada por muros, trepadeiras e um portão descomunal, cômico e desnecessário em sua bestialidade considerando uma calçada tão curta; sua madeira reluzia engordurada aos raios de sol, o estofado de couro arranhado, preso por tachinhas de metal. A câmera fotográfica pesando na minha mão, o rebuliço das borboletas do estômago, atirei-me sobre elas como nunca me atirei em cima do ser amado, a perfeição de um ângulo de 90º entre coluna-bacia-fêmur. Suburbanamente comecei a bater palmas diante o portão quimérico, que, percorridos longos minutos, foi aberto pesadamente por uma empregada desconfiada se aquilo era um chamado ou palmas emocionadas para tal residência de estética duvidosa. Clamei por uma cadeira, uma mísera cadeira, e ela me olhou de um jeito engraçado de "ou é pobre muquirana ou cultiva o espírito de um" e, desprezando meus anseios aristocráticos falidos, disse que podia levar qualquer coisa que estivesse na rua que não era problema dela.

Foi a felicidade.

Mas, mas...como as coisas intensas são breves, houve o fatídico momento dos erros: não tomei-a em meus braços de imediato. Continuei andando para terminar o que me havia proposto a fazer, falar mal das coisas, e na volta, ó malditas escolhas, na volta a levaria comigo. Quando me dirigi saltitante como uma gazela no cio para buscar a cadeira, deparei-me com o meu algoz: sem metade dos dentes, a pele judiada de sol, um boné do Leonel Brizola: ele havia enfiado, todas, TODAS as cadeiras na sua carroça.

-Moço! Moço! Essa cadeira é minha moço, eu a vi primeiro, a empregada falou que eu podia levar uma, eu estou trabalhando, sabia? Trabalhando, por isso não levei na hora! É verdade, pergunta pra jagunça ali se não faz 15 minutos que passei  e pedi pra levar. OU! Estava trabalhando, você vai levar tudo mesmo, eu estou pedindo por favor, moço!

Ele me olhava achando graça, mas disse que levaria todas, porque já tinha uma mesa e a mesa precisava de seis cadeiras. Caralho! Quem precisa de seis cadeiras? Senta o mais novo no chão, come na cama, janta coxinha, moço eu queria tanto uma cadeira! E impassível balançava a cabeça em negativas de que não abriria mão da minha cadeira

-ô moça, eu preciso delas, moro com a minha mulher, minha sogra, cinco filhos, três netos, um cachorro, uma preá, o sobrinho com o melhor amigo, a prima de segundo grau com duas crianças, o ex cunhado com a mulher nova e a minha irmã solteira! Vou lixar essas cadeiras, pintar de azul, vai ficar lindo! (O olho brilhava na perspectiva de como ficaria uma cadeira clássica, senhorial, elegante pintada com suvinil, ai meu paizinho)

Aquela visão me desesperou:

- Moço, qual seu nome?
-Bahia
-Moço, ninguém se chama Bahia
-Eu me chamo
-Não, não chama, ninguém me chama de São Paulo
-Mas as pessoas me chamam de Bahia, então é Bahia
-Não vou te chamar de Bahia
-Por qual razão?
-Seu nome não é Bahia
-Não, é Ênio
-Ênio foi meu professor de química
-Da Bahia?
-Não, Ênio de São Paulo
-Ah, eu sou da Bahia, por isso me chamam de Bahia

Vamos lá, Ênio: Não vou te chamar de Bahia, pelo simples fato de seu nome ser Ênio, e te chamarei de Ênio por não ser Bahia. E apelidos são para amigos, e você, Ênio, não é meu amigo, é um estorvador, um afanador de cadeiras. Não resisti, naquele momento já estava endemoniada:

-Ênio, eu preciso dessa cadeira, sabe, preciso mesmo, estou montando um apartamento, Ênio, eu vou casar! (Nesse momento uma sensação dolorosa me subiu pelo estômago: não só não ia me mudar, como a promessa de casamento havia ficado perdida em tempos passados em um namoro que há poucos meses se desfez e a ausência incômoda ainda passeava em mim: mas fui mais forte, engoli o choro e me concentrei, pois naquele momento havia coisas mais importantes) Ênio, adoraria ter uma cadeira dessas em casa no meu novo apartamento, eu e meu marido, viu? Marido, não tô juntando não, vai ter cerimônia, eu tenho até um vestido, da Dior, você sabe o que é? Combina com a cadeira. Vou casar Ênio, ter uns dois remelentos que vão adorar uma cadeira antiga, é o que falta para a minha decoração, você sabe (ou não, acha as coisas por ai e pinta de azul), é tudo muito caro, viver tá caro, muito caro! Vai ser a única cadeira da minha casa Ênio, como eu vou ficar sem cadeira, você tem cinco! Caralho me dá uma!

Juro que naquele momento casaria com o primeiro filho da puta que passasse só pra ter a cadeira. Mas ele não se sensibilizava:

-Ênio, você mora em uma casa invadida no fim da rua? Você mora no Jd. Europa? No CENTRO EXPANDIDO? Ou, eu moro no Tucuruvi, é bem mais periférico, eu mereço a cadeira! Você tem carreta pra carregar os 43 móveis, eu vou ter que carregar embaixo do braço, sou sofrida, olha a magreza das minhas ancas nem sei como eu vou parir os dois remelentos, por favor (e apelei, me rendi) por favor, Bahia!

Foi citar o estado que lhe pariu, que finalmente fitou-me nos olhos. Varreu-me o corpo todo, deu um breve suspiro e disse:

- Ô branquela, você já me torrou o saco, porra.

Resolvi então que era bem melhor que ele. E disse que levasse a cadeira, encarinhei-me com a cena dele chegando em casa com os móveis novos, a renca alegre, todos com pincéis para transformar a mobília em algo que pudessem se apropriar. Olhei a cadeira amorosa e a figura sofrida do pobre diabo, as marcas das dores na palma das mãos, uma vida de durezas e falta de oportunidades, excluído de um sistema perverso, percorrendo as margens sociais da selva urbana...

-ÊNIO ME DÁ O CARALHO DA CADEIRA DE VOLTA!


Sacripantas, se mandou com a minha cadeira...

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sob medida

Foi muito difícil não abrir seu álbum de fotos, exatamente hoje. Não sei se fui tomada por uma emoção literária que tomei emprestado, essas tão conhecidas suas, que estão sempre na intermitência de estourar quando me reconheço em alguma linha, não sei se foi o tal vídeo que assisti em uma exposição, bem megalomaníaca assim, palco de algumas lembranças que começam a se fazer distantes no banco dos instantes, o qual uma mãe fazia um apelo a memória de seu filho pai marido amigo enterrado como indigente, e se me embrulhou o estômago na perspectiva palpável do esquecimento e do derradeiro abandono de um corpo tão cheio de memórias, tão sentido e atravessado, perverso no seu próprio irreconhecimento e momentos de distância de si no desvario cotidiano. Não sei o que foi, talvez tenha sido saudade, talvez. Saudade, sei lá de que, pois em mim não se configura nenhuma imagem ou momento, mas sinto ali, na base da coluna uma continuidade que me ultrapassa a carne, como um outro corpo que pesa e se arrasta junto: vem abraçado na minha cintura com um olhar terno e cansado, sempre olhando para trás. Mas abri e vi sua foto, as muitas fotos de todos os vocês que eu já não reconheço, simplesmente me escaparam e me peguei pensando se algum dia conheci qualquer um desses que vão se apresentando, desfilando baixo a vista em sorrisos e caretas que tanto me faziam rir. Faziam? Não lembro. No transportar das bagagens deixei alguma no meio do caminho, não sei se propositadamente ou na distração: essas que sempre tomaram conta de mim. Na cabeça sua vaga imagem transitando por este corpo que tanto quis te guardar, mas que você só coube na ausência: é que ele foi feito na medida de mim.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

E então Deus criou o mundo

É sabido que ao longo da história da humanidade ocorreram inúmeras tentativas de transcrever ditames de um tal pai celestial que tudo vê para melhor orientar a vida de suas crias. Filhos. Enfim, como tal responsabilidade foi delegada ao ser humano que possui o dom natural de emporcalhar qualquer lugar que passe (e deixa rastros de sua ruína, e almeja transpor o tempo para que não se sinta tão insignificante perante as coisas que realmente não são perecíveis: tanto em ordem matérica quanto evolutiva), não é um grande absurdo afirmar que este serzinho bípede dotado da capacidade de produzir letras e com elas criar significados e nuances de pensamentos ad eternum em seus papéizinhos e tabuletinhas, criassem uma séria e por vezes nefasta confusão sobre quais eram esses preceitos deixados pelo Fecundador universal para que nos tornássemos plenos em nossa jornada para o fim descabido, silencioso e incerto que se mantém intermitente, perseguindo-nos junto ao calcanhar como um duplo descarnado e saudoso do contato da pele com o sol. E da pele com o asfalto. E da pele com a pele (e os arroubos de arrepio quando o vento sopra devagar na nuca, anunciando a chegada do algo tão esperado, aquela cabeça que aparece na janela e te assobia a verdade do mundo e a vista turva se faz luz como bundas de vagalumes contra a copa densa das árvores em uma noite de inverno, exibindo a claridade que não precisa tomar emprestado: tenho uma tia que sempre soube, ali na borda do prato mesmo, nunca precisou mergulhar a colher até raspar o fundo para se sentir alimentada, que estas vozes eram a própria lucidez que lhe acenava, mas suas ideias foram meticulosamente desvalidadas por um diagnóstico rabiscado no papel ou algo do tipo com o dizer: ESQUIZOFRENIA).

Muito se falou de tais escritos que foram sendo produzidos, e dos falsos e verdadeiros profetas que prostravam-se contra a fúria do mundo, clamando (blasfemando), traduzindo (inventando), dando a luz (mergulhando na ignorância) multidões de fiéis necessitados desse sopro que em teoria é mais discreto e de corpo mais sutil que um padreco glutão ou um califa assanhado. Ou um hindu levitador. Ou um rabino feito todo de cachos com seu terno de lã em pleno sol da Av. Tiradentes, transpirando seu amor ao ser Divino que provavelmente estivesse com um leque observando-o do paraíso, pois se fomos feitos a sua imagem e semelhança, deve ser então acometido por calores quando o verão saárico se apresenta no mundo. Um grande leque feito de penas do grande pavão cósmico, ser mitológico de algum grupo cultural que passou e já foi e só legou suas anotaçõezinhas desse Ente Maior que se manifestou em algum momento. O grande problema de tais devaneios ancestrais para os estudiosos é que Deus se manifestou de maneira muito distinta para cada sociedade que resolveu se encerrar em um espaço, e mesmo dentro destas sociedades as pessoas divergiram em como haviam se dado estas manifestações. Há uma história célebre passada em Mântua, de um tal Ludovico de Scárnia que atirou-se da torre maior do mosteiro acreditando que o cordeiro lhe revelava o segredo de Ícaro, quando na verdade, disse Frei Jorgues, o que queria dizer Deus era que a incapacidade de voar tornava o ser humano um ser engenhoso: e por isso eram ornitólogos e não pássaros. Frei Jorgues é uma figura que merece especial destaque no estudo da palavra divina, pois, antes de brotarem das rochas testamentos esquecidos ou preceitos ignorados dentro da religião; antes dos protestos e dos franciscanos, antes da caminhada do muçulmano peregrino ou do cair do Imperador Sol, Jorgues já se perguntava sobre a incompletude dos 59.547 textos produzidos ao longo dos anos, os quais todos afirmavam serem a verdade única do Criador. Frei Jorgues também deixou suas anotações- por muito tempo ignoradas- reflexivas sobre a divindade. Diziam:

1. Deus está em todo o lugar, e se está em todo o lugar, somos todos partículas divinas que se desprenderam desse corpo maior que, solitário no céu, desmembrou-se em inúmeros mas finitos pontos de luz para que pudesse compreender o que é aquilo chamado de experiência humana: algo que reconhece ser sua invenção, mas que ainda se mostra muito misterioso para Ele

2. Para tal entendimento, percebeu também que cada qual descobre para si verdades para voltar pra casa, havendo então de se manifestar de formas distintas e irregulares, para tornar-se compreensível a quem necessita compreendê-lo (não conseguiu prever que faz parte da experiência humana desvalidar o outro como forma de submetê-lo: foi ai que Deus conheceu a mesquinhez e a maldade)

3. A necessidade de pertencimento do homem faz com que essas vozes sutis passem desapercebidas, criando a expectativa que ensurdece de encontrar seu igual, sem lembrar que o corpo (mesmo o universal) é a priori assimétrico,então nenhuma das partes poderiam se corresponder em uma forma que não transbordasse ou faltasse milímetros: há quem creia que é nesse estado de desencaixe que mora a perfeição, pois se apropria do espaço vazio como algo natural e participante, englobando em si todas as imensidões

4. A morte destina todos para o mesmo lugar: o de morrer. E em geral o mesmo funciona para outros verbos vitais

5. Quem gosta de "cídios" é a humanidade. Vá e defenda tua crença pode ser interpretado de maneiras mais gentis ( Vide que quando Frei Jorgues escreveu estas premissas, as grandes ciências que pensariam na mensagem e no receptor estavam para ser inventadas)

6. A única forma de se encontrar


Frei Jorgues, pelo que li, não terminou de escrever suas conclusões. Parece que foi acometido por uma vontade de caminhar e não mais voltou, apenas uma vez, pelo que parece, para conversar com o defundo de Ludovico, o voador. Talvez não tenha concluído, mas pelo que tenho estudado, ninguém o fez, ou não muito bem: uma vez cheguei a pensar que estamos todos na fase rascunhal desse ser Criador que deixou o lápis na boca de um cachorro celestial que está rabiscando toda a história enquanto Ele descansa embaixo do seu manto estrelado de céu. Depois ri de tal hipótese.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Mal do século: verbete

Composto por uma parcela de melancolia resultante de uma super produção de bile, combinado com um frenesi por conta do aquecimento do sangue, as pessoas que padecem do estado amoroso, infelizmente, procuram a cura de tal doença em raríssimos casos, pois seus sintomas são muitas vezes diluídos ou confundidos com outros estados emocionais eufóricos que causam essa sensação de bem estar momentânea; mas qualquer pequena frustração que acomete esse ser amoroso é o suficiente para desmanchá-lo e fazê-lo criar na pele pequenas protuberâncias e cicatrizes como se feitas com material incandescente; sensação de salto agulha sambando no peito: insistente e agudo. Em alguns casos, não raros, são tomados por alucinações e enxergam o objeto de afeto em todos os espaços, insistem que o carregam dentro: como se fosse possível afirmar com tanta certeza que além de si há outro que ocupa espaço dentro do nosso corpo (enxergam-se explodindo e nos casos mais graves arrancam a própria pele dizendo que assim arrancam também o outro((alguns, mais radicais ainda, colocam-se do avesso, vomitam as entranhas, atiram pedaços de intestino e expulsam, expulsam tudo que acreditam estar contaminado e preenchido)), sem perceber que assim, na verdade, se desfazem de pedaços que lhes são pertencentes, e a mais ninguém). É um diagnóstico complicado de início mas a idiotice logo se sobressai, tornando fácil indicar aqueles que padecem de tal estado: vagam com sorrisos tontos na rua, um olhar débil e sonhador: a língua vulgar, em uma tentativa de fazer-se poesia, se desenrola em palavras complexas ditas vindas de algo divino, que nós, os simples, não podemos tomá-las em sua total compreensão, o que as torna mais silêncio que fala: o que as torna mais peso que respiração: mais grudam do que vestem: rebatem no corpo o suficiente para serem engolidas mas não digeridas dando a breve sensação de preenchimento e completude, mas que tão logo se esvazia, condensa, e faz do descomplicado a tentativa de cavar concreto com a ponta dos dedos (a carne machucada arde em um clamor febril na crença das causas impossíveis: mais um dos estágios das alucinações: no campo das impossibilidades, quanto maior o erro, mais palpável ao ser amoroso lhe parece) Há quem diga que nunca se cura, o estado amoroso, mas há relatos de que a cura está no próprio amor, que no fim das contas, tem  seu fim em si, apenas. Estudos datados do século XIII, feitos nas abadias longínquas de Octusburry, diziam que banhos gelados com ervas rasteiras ou uma boa dose de vinho ajudavam a acalmar os ânimos dos frades tentados pelo amor, este causado por alguma campesina dos seios em riste embaixo do trapo de algodão. Iam narrando sensações que dançavam pelo corpo, e de como se elevavam suas partes quase como mágica, fazendo-os chorar por todos os orifícios. Os sintomas são os mesmos há pelo menos 1200 anos, mostrando que, ao longo dos séculos, não progredimos muito com a doença que assola mais da metade da população mundial. Não se sabe ao certo quando começou a disseminar-se, mas há registros mais antigos que o próprio homem de sua presença nos seres mais pequeninos, suspirando trevosos, amedrontados com o agridoce que a doença deixa, abandona na boca.


Nota: Foram encontrados há alguns anos documentos provindos da região de Mouriscânea, rebatendo a crença do amor como doença: do pouco que se conseguiu traduzir de tal idioma barbaresco, entendeu-se que acreditavam que o ser que se mostrava incapaz de contaminar-se com o tal, é que padecia de um estado doentio, blasfemo, vil, cretino, ludibrioso, infeliz, enfezado, requenguela, mentecapto, vesgo, infame, fétido, viscoso, descortês, ignorante e bobo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Até tentei escapar

E ai se me apresenta a frase que não é homem e sim o mundo o anormal, mas sempre me perguntei quais são os preceitos da normalidade que a tornam tão palpável quanto se fala dela: é vaidoso dizer-se dono da consciência em sua totalidade, em sua plenitude, sabendo dos arroubos de espontaneidade animalescos que nos tomam de surpresa em um comportamento um tanto debilóide: tanto dentro de uma tristeza quanto de uma alegria desmedida escancarando a boca cheia de dentes, fazendo-se avesso, secretando por aí as coisas que se diziam vergonha: deixa um rastro gosmento na calçada que brilha em dia de sol enquanto sente o corpo pulular alegrinho, o pé empurrando o chão em uma tentativa de vôo, mesmo reconhecendo o peso: mesmo ciente da queda. Ora, e de que importa esborrachar-se feito um purê desengonçado neste plano horizontal que se diz feito para caminhar por cima, quem liga, quando à contravenção, o corpo é tomado por um ânimo ( e aqui evoco toda a ancestralidade etimológica da palavra ânimo, porque só assim ela se fará compreensível no tipo de ânimo que falo, sabe? o ÂNIMO, aquela coisa do caralho que te toma e UAH, te faz soltar um brado vivaz e ridículo feito pirata em cima de uma canoa para enfrentar a tal da tempestade feita uma nuvem só) uma vontade cômica de esparramar-se cortando as linhas fronteiriças com uma tesourinha: recorta a boca o crânio a coluna vertebral e o períneo esparramando o amor, a vontade e o monte de bosta presa ( sempre me perguntei como as coisas sublimes sobrevivem no corpo nadando no meio de tanta porcaria) pelo chão, sabe? o chão do mundo, a calçada infinita que em algum momento da vida desemboca em alguma avenida 9 de julho espalhada por aí, em alamedas de natureza artificial com árvores feiosas de luzes de natal. A coisa é, tem diferença a minha anormalidade com a do mundo, se o construo e secreto nele todo o meu serzinho, esse euzinho umbigado que caminha arrastando-se, sonhando agarrado a postes, lambendo o corrimão das pontes para acessar as mil línguas que se debruçaram contra o parapeito em devaneios de vidamorte enquanto se levantavam os prédios? A loucura do mundo é só uma faceta minha e vide o verso.