domingo, 28 de agosto de 2011

Para vocês, lembranças

Venho por meio deste, informar-lhes que já não as quero em mim. Pretendo a partir daqui esquecê-las, pois assim talvez possa ser tranquila.
Não necessito de nada que me lembre que já fui menos torta ou errante do que sou hoje. Não preciso, e não quero vocês - a causa de minha melancolia e falta de ar.
Saber que vocês fazem parte de mim é o que mais me dói. E é uma dor tão grande, que se a pudesse materializar, poderia dividi-la em milhões, zilhões de pedaços e espalhá-las por todo o espaço, regalar uma pra cada pessoa, uma recordação minha pra eu não ter que me lembrar mais.
Então é isso, não as quero mais. Não apareçam em meus sonhos como prova de uma saudade reprimida e contida. Não as quero.
Claro, não significa que não irão fazer falta, mas caso vocês estejam, obrigatoriamente terei que lembrar de mim, e eu não quero.
Então, me despeço, para que eu possa me esquecer assim.
Talvez, talvez, desse jeito minha dor diminua e meu ar volte. E se vocês forem, nem me lembrarei que um dia doeu.













Mentira.

sábado, 20 de agosto de 2011

"...deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro teus lábios, não a diga..."
Clarice Lispector

Me fitava seriamente com o coração tão vazio de mim. E na expectativa de achar-me naquele corpo, me esvaziava para tentar preencher aquele espaço que eu não fazia parte.
Você se levantou e saiu.
Me deixou com o vazio de mim em você, e o meu esvaziamento de mim.

domingo, 3 de julho de 2011

É certo que aquele fio esperançoso se rompeu feito remendos de roupa velha. Mas eu gosto muito dessa roupa, então eu a coloco na gaveta por recordação só. Há espaço, então eu guardo com carinho, e espremo de alguma maneira o novo nessa mesma gaveta. Ainda insisto em vesti-la, sabe aquela saudade? E fico no espelho lembrando de como ela caia bem, mas os fios, pobres, todos gastos, até mesmo aquele filete pendendo melancólico desprovido de sua função de agasalho. Ai eu tiro e guardo de volta, até a hora que a gaveta se sature, e as peças protestem desesperadas por espaços. Ai, como sempre, vou começar a colocá-las em qualquer buraco do armário, em cima de cadeiras e no pé da cama. As novas. A remendada fica ali, afinal, não sobram opções além destas
a) Guardá-la e que ela ocupe espaço pra sempre; b) tentar remendar e dar uma solução porca para aquilo que já foi desfeito; c) doá-la, doar algo roto para alguém e por carência, aquele pedaço que falta não fará diferença, antes meio do que nada, não é assim que ensinaram? Não é? A ter pela metade? Poderia tentar remanejar onde por o que, mas está tudo tão bagunçado que me dá preguiça. Sem contar que é uma surpresa, estendo o braço, pinço com o dedo e olhe só! Resgato algo, que provavelmente me entendie, não entendo o novo. Gosto de olhar, mas me seguro em fios rotos e os puxo até eles se desfazerem. No final das contas sou um corpo nu sentado no piso do quarto, as roupas velhas estão desfaceladas e não são suficientes, e as novas não me vestem.

sábado, 2 de julho de 2011

E ai surge aquele incômodo. Começa pelo estômago e se revira, enquanto o resto do corpo se mantém naquela espera, totalmente significada pelos olhos. Fica por favor, ou pede pra eu ficar. Mas não de qualquer jeito, por favor explode, como a minha vontade de explodir no meio dessa espera incômoda. Chega. Senta, aqui do meu lado, e fica. Eu juro, que não existe nada além disso. A vida inteira não passa de sonho, então fica aqui, entra, rompe com esse incômodo com a mesma força com que ele se instalou e me acompanha, pra qualquer lugar, e não me deixa ir. Grita, por favor pra eu ficar, que de leve eu me encaixo no seu corpo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

É pensando em coisas impossíveis que me mantenho alegre, mas quando o divido, e percebo a sua finitude perante o mundo, desmorono.

domingo, 12 de junho de 2011

Tem quem diga que é terrível gostar demais. Sei lá. Acho bem pior gostar de menos.

Tudo

Agora era tudo. Não era o máximo estar sentada ali, na verdade era pesado, era cheio. Ao contrário do esvaziamento, eu passei a ser preenchida, com tanta, tanta força que eu achei que a qualquer momento eu ia desfazer, e escorrer pelo piso, e manchar chão, parede teto, porque ia explodir tudo pra todos os lados. E era todo um peso concentrado naquele estar sentado, e desesperador, porque estava prestes a estourar e todas as pessoas passando ao lado, e sentando, e fazendo qualquer coisa, e ninguém via ali um ser atônito, e existente, pois naquele momento eu existia mais do que nunca, e tudo e toda angústia se materializava de tal forma que senhor, era impossível ninguém se incomodar. Não era só estar sentado ali dessa vez, era existir com tamanha força, era estar presente com todas os orgãos com tal força que cada um seguia no seu ritmo, totalmente autônomos, e trabalhavam de forma exasperada. Os olhos a cada piscada era um alívio, tapa olho que deixava tudo escuro, e chamava aquele estado de coma, tão mais tão pedido naquele momento. Era o coração querendo explodir, um pulmão sufocado, e um estômago que gritava por vomitar, e ia vomitar todo o eu mesquinho que insistia tanto em se manifestar, e pedia tantas coisas, e tinha eu também, sentada, cheia naquela espera, eu sou só espera com orgãos reinvidicando, um eu prestes a ser vomitado, sentada atônita no meio da passagem, com uma presença mais forte do que nunca.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

nada

Era incrível. Dava vontade de ficar sentado o dia inteiro só olhando. E fazia muito sol, muito sol, e a cidade estava fria, muito fria. Mas estar sentado ali, era incrível. O sol varria o frio, mesmo aquele que insistia em surgir de dentro, ia derretendo de pouquinho. Dava vontade de ficar horas, meses, anos só ali, sentado, pois era incrível. Era um não estar estando tão completo. Porque eu estava aqui e lá, quente na cidade fria.
Era um não pensar delicioso, olhando aquilo, divino. Não amava, não pensava, não sentia, era um grande nada pronto a ser preenchido, por qualquer coisa. E ser qualquer coisa era fantástico. Você entende de tudo, tudinho um pouco de tudo que existe, pois tudo passou ali, num instante, carregando e descarregando tudo. E era só estar ali, sentado. Era algo parecido com não conter. Não tinha corpo. O coração explodiu, a língua pronta a desenvolver um vocabulário novo. Novos olhos é o mais incrível, olhar de novo, e de novo e ser tudo diferente a cada piscadela. O piscar sendo pausa para digerir novas imagens, e não uma fuga mínima de si. Não fugir é o máximo! Pois não existe eu, você, nada. Só aquele instante, de estar sentado, e ficar olhando o dia inteiro só. Incrível.

sábado, 28 de maio de 2011

Não pensei em título nenhum hoje.

Tenho tido dias atípicos, é verdade. Não por algo extraordinário, mas porque alguma coisa dentro de mim mudou. Na verdade ela já está quase reformulada, mas eu demorei muito tempo para me dar conta dela. Simplesmente porque dentro de tantas neuroses, eu não me dou conta de mim.

Sempre achei gente muito feliz burra. Entretanto, inteligente sou eu, que vivo deprimida? Ai, sempre vem aquele discurso clássico “As pessoas felizes são aquelas que não enxergam o que acontece no mundo”. Bom, eu enxergo, ou acho que enxergo, e isso não muda muito né? Afinal, estou deprimida demais pra tentar fazer qualquer coisa. E não nos deprimimos pelo mundo, nos enternecemos algumas vezes por algumas tragédias, mas passa, porque terminamos de ocupar nosso bode diário com alguma aflição nossa, vinda de hábitos que adquirimos.

Hoje acordei, vi um filme, vi dois. Quando ia pro terceiro, decidi me exercitar, pois isso é algo que eu sempre faço, exercício. No meio dele, tive uma crise de choro, pois aquilo que eu estava fazendo não tinha o mínimo sentido. Há anos eu faço milhões de exercício, minha barriga é rasgadinha, e só hoje eu fui perceber. É um ato totalmente vazio, que não sei pra que ou pra quem eu o faço, porque no final dá na mesma, nunca está bom. Mas também não posso ficar sem fazer, senão são milhões de vozes na minha cabeça me lembrando que eu vou engordar, vou lotar de celulites e todas as outras coisas que vem junto. E engraçado, que não é uma coisa que eu me preocupe muito nos outros, na verdade acho que não faz diferença. Mas eu? Eu tenho que me manter impecável, bonitinha, uma boneca. Faço diversas coisas diariamente que não fazem o mínimo sentido. Escondo-me diariamente atrás de um boneca. E boneca o ser inanimado. Pois até para sentir eu tenho dificuldade. Se não for algo extremo, assim, que arregace essa casca, eu não retiro a minha proteção. E Deus, eu tento. Mesmo. Sou apaixonada, muito apaixonada, mas não é algo gostoso, pois eu reluto todo dia a sentir isso, eu não me permito. Pois, é explodir com toda a estrutura montada, e me mostrar uma total débil extremamente sentimental. Eu Deus, eu amo muito.

Todos têm sua ‘bolha’ particular, mas permitir que ela atrapalhe o contato com algo real? Longe daqui de querer discutir o conceito de realidade, mas o que tomo como real, é o sentido da troca, da experiência, um sentir nato onde as energias se entrelaçam. Participo de poucos e deixo poucas pessoas participarem.

Ah! E claro, não esquecendo o maior dos hábitos, que é um erro quase geral. O do esvaziamento. Nos colocamos na frente do outro vazios, esperando que ele nos preencha, como se nada tivéssemos para oferecer. É um tanto egoísta não? Tanto com o outro, quanto conosco de não querermos partilhar. O anulamento próprio em função do outro. Com isso nada se aprende, nada se muda. Se ambos tiverem a mesma idéia, serão dois espaços vazios. Se só um tiver a idéia, não fará a mínima diferença, afinal o conteúdo será o mesmo pros dois.

Uma vez, me chamaram de mosca morta, e eu fiquei puta. Putíssima. Não com a pessoa, mas por mim, porque é verdade. Eu tenho medo, muito medo. Mas enquanto eu me guardo, pra algo que nem eu sei o que é, a vida passa, e rápido. É clichê mas funciona. Eu amo dançar, e infelizmente carreira em dança precisa começar cedo. Eu sou travadíssima por medo. Eu tenho medo da minha paixão. E o tempo passa, e juro, não quero ser dessas velhinhas que saem no jornal que começaram a dançar velhas e são exemplo de vitalidade aos 80. Eu quero isso agora, enquanto meu corpo não me limita. Engraçado, que quando não estou noiada, ele faz coisas ótimas. Se essa dicotomia corpo e alma for real, pobre do meu corpo, que se debilitou por uma alma totalmente problemática e nhé-nhé. Taí uma definição ótima nhé-nhé.

Talvez tenha pego referências erradas. Desde os 13 anos, gosto de ler tudo que cultue a morte. Costumo me identificar sempre com os deprimidos, esquisitos e muito com os coadjuvantes. E ai, acho que me acostumei a não querer conduzir nada, a não optar muito, e agora estou aqui, me expondo ridiculamente porque cheguei em um limite.

Engraçado, eu gosto de escrever, muito, e não estava conseguindo, pois qualquer ato artístico tem obrigação de ser sentido, e como disse, eu ando com problemas nessa questão, hahaha.

Mas hoje, hoje eu quebrei o hábito.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Só de vez em quando...

Só de vez em quando, eu queria sentir que finalmente passou, que finalmente estou bem e que já consigo pensar em prosseguir sem receios, sem medo. Que eu pudesse olhar, e me reconhecer perfeitamente diante o reflexo. Que este viesse de forma explosiva repleto de si, de mim, e enchesse a casa assumindo sua obrigação já um tanto atrasada de pertencer, existir. Só de vez em quando, queria sentir que nunca me despedacei, e que de forma irresponsável atirei meus pedaços a outros, pedaços de carne crua, inúteis. Ter conseguido ser um corpo em sua totalidade, e ter me apresentado assim - membros, cabelos, olhos, tripas, pulmão e um coração pulsante - plena. Só de vez em quando, poderia ter pensado em juntar as lágrimas que tanto derramei e ter regado algo, ou guardado num copo pra quando fosse necessário navegar, mas nem disso fui capaz. Fui apenas me guardando, pra algo que já nem sei o que é. Só de vez em quando, queria saber, o que realmente eu estou tentando provar, pra poder sorrir de forma despreocupada, só de vez em quando...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Procuro...

Não. Nada, nada! Além de você...
Hoje acordei suada e com o rosto coberto de lágrimas, causadas por um sonho ruim. Em vão, rolei meu corpo para o outro lado da cama, onde você não estava. Desesperada, transformei o vão entre a cama e a parede em um enorme abismo. Me agarrei forte no pedaço de madeira da cabeceira, sentindo o enorme espaço despreenchido. Não sei se era a cama, se era eu, se era o quarto, só sei que era tudo um imenso vazio, um grande nada no qual eu fazia parte. Afundava o rosto molhado no travesseiro, e um filete de esperança surgia ao ver que este produzia marcas molhadas no tecido - era um sinal de que ainda estava ali. Mas e você? Sem me soltar, procurei atônita teu cheiro no espaço, marcas no corpo, vazio.
Me diz, porque te escapas devagarinho de madrugada? O que fazes? Buscas um novo amor na calada da noite? Não consegues ver que sofro na ausência do toque seu? Que quando entrelaçados nossos corpos, não existe nada além dos limites da minha cama? E mesmo assim, você não está aqui. Sou apenas eu, mergulhada num imenso vazio, escuro, perturbada por um sonho ruim.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sem título 6

Tá, vou deixar você entrar. Só tome cuidado para não se perder, são infinitos os caminhos, e na sua maioria são escuros. Mas te garanto, pode pisar sem medo. Terão infinidades de coisas para que teus outros sentidos sejam aguçados. Mas entre, devagarzinho, te garanto que haverá uma parte para seu aconchego, onde descansarás numa tranquilidade infinita -é a pequena parte que ainda não é escura- e lá estando, sei que serei tomada por um calor absurdo, que vai pulsar o sangue por todo meu corpo, e com um sorriso ligeiro vai me passar pela cabeça que ainda há vida, e que no exato momento que você decidiu entrar, ela se fez mais presente do que nunca.
Estou neste exato momento, rompendo o meu constante estado de tédio.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sem título 5

De repente do picadeiro, eu passei pro trapézio. E do alto eu me balanço, balanço, e há diversos espectadores. Alguns torcem pra cair, outros querem ver as piruetas e alguns não querem nada. O fatídico: Se eu solto, eu me esborracho? Caio de pé numa elegância felina? Talvez desafie a gravidade me projetando cada vez mais pro alto. Então eu fecho os olhos e me atiro, de peito. Não houve reação, na verdade é como se o tempo tivesse parado e eu me mantenho suspensa por algo maior, por quanto tempo? Não se sabe. Qual será o fim da nobre trapezista? Pouco me importa, estou interessada é no meio. Nada de ruim pode me acontecer agora.