quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Babélico

Há um tempo me assombra a ideia de que talvez fale certo idioma Babélico disfarçado por um véu dionisíaco que esconde o tédio que se escapa tanto de mim que falo, quanto daquele que no esforço de ouvir, perde-se nos rompantes de sons incompreensíveis e significados dúbios de uma língua já velha, exausta de movimentar-se na boca seca de mel: salga o paladar de comida fria enquanto observa mil bocas mastigarem na sua frente com a estranheza de quem observa de perto um inseto deglutindo o alimento: porque não se proíbe que se coma diante o outro? A mesma boca vil que blasfema mantém o ser melancólico vívido esturricando-lhe o sistema digestivo de mil nutrientes que não contemplam a ausência de coisas mais vitais, mas há quem diga que amor não suporta um estômago vazio. A boca: mastiga, movimenta a comida de um lado para o outro, restos de alimento escapando em uma fala incongruente, enche a boca de gás: a mesma que irrompe a boca alheia com a língua: que molha a buceta no quarto escuro, sorrateira mergulhando mais e mais no corpo entrevado, a língua doce de secreções lambendo o resto do corpo, escreve com a saliva palavras incompreensíveis nas minhas costas Benedictus ore in my ass, não rasgue o véu há muito tão bem colocado: é derme: suas mãos escalpelam e me fazem nua em carne-viva: exposta, vulgar, o sangue-suor escorregando pela testa pescoço, pingando no lençol branco: corpo alimento.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

(Amar)go

- Fodeu.

E tinha certeza que havia algo errado. Puxou da memória as possibilidades para tal coisa terrível que tinha certeza que iria comê-la aos pouquinhos até virar um nadinha intragável, até desmanchar como um balão furado, como um mamão na fruteira que ninguém come pois há frutas bem melhores que mamão. Era ela naquele fatídico momento do mundo, dando-se conta que estava condenada a padecer de uma doença tão incômoda e tão devastadora e tão amoral que iria obrigá-la a retirar-se da vista dos outros e isolar-se como uma ermitã nas pseudo-montanhas de sua cidade com uma arvorezinha ou outra que tomba na estrada em épocas de chuva muito forte e impede o acesso. Ela deveria ter impedido o acesso desde o começo, de um, de todos, pois agora via-se ali, invadida, contaminada e tão perversamente retirada e arrancada de si (pois agora era a casa de um vírus-bactéria-ferida ou algo parecido que só iria se multiplicar e desalojá-la do que agora considera templo ((pois antes odiava, desprezava e chorava copiosamente pela má-sorte de ser como era)) ou o único que lhe pertence), que quis encarecida e devotamente acabar com todo o dramalhão logo. A casa viria abaixo por vontade própria; não ficaria à espera de um bichinho desgracento, de uma dorzinha ardida que resolvesse trabalhar e mordiscar célula por célula, tulmorizar pedaço por pedaço, deixando no caixão um cadáver feioso e desumano de cor arroxeada. Era essa a memória que tinha dos que padeciam de tal doença ou coisa parecida: em geral, cadáveres não são lá muito bonitos, não importa, na verdade, pois já estaria morta, mas aturar os comentários de como foi e como estava, ai, isso não. Mas como, como isso tinha acontecido? Pensou em um e outro que trombou por ali, no amorzinho, no quase, quanta gente passou, e foi deixando um pouquinho, cada um deixando um pouquinho, queria devolver urgentemente estes pouquinhos, uma malinha para cada um que passou " Toma, leva, é seu, não meu, seu, SEU, responde a outra pessoa esse pronome, leva", mas como separar? E tem coisa que já era tão dela: o jeitão de falar, o jeitão de andar, o jeitão de vestir. E tinha certeza que alguém havia esquecido um pedaço do corpo nessa de esquecer as coisas, deixou lá, escuro, na origem de tudo, cravado em um músculo pulsante, para que engravidasse da morte. Tinha certeza, apesar de não lembrar. Tinha certeza, apesar de não trocar, tinha certeza, apesar de odiar toques. Tinha certeza. Estava tão contaminada, tão dolorida, era uma dor tão real, tão certeira, que só podia ser a morte anunciada: estava contaminada de vida pelo outro: a tão bem-vinda a sondava e destruía: uma vida com contagem: deseterna e fadada aos devires. Sabia disso quando acordou. Pensou nos seres queridos, nos não tão queridos, nos que ainda seriam queridos,nas explicações e nos avisos: as desculpas por se deixar invadir. No espelho já se via vulto: a imagem descarnada de quem já está de partida. Meteu-se nas vielas, pois, antes de retirar-se assim, meio à francesa das coisas, tinha que ter certeza:

- Muito bem, já lhe chamam pro resultado.

O braço todo picado, ela e mais 3 caras, a salinha de espera tocando algo que chamava lounge, foi o que um deles disse. Que porra de música chama lounge, isso não se faz com quem espera algo tão sério, música lounge e balinha de gengibre, queria chupar o pote inteiro de balas, queria chorar e já pensava em como ia distribuir seu tão pouco até anunciarem seu nome. Sentiu um breve espasmo e morreu. O que se moveu dali em diante foi qualquer coisa que receberia a notícia: ela quis ser mais esperta e morreu antes.

-Muito bem, tudo certo, saúde impecável: nada foi detectado no seu sangue. Nem no seu estômago, nem no seu rim, nem no coração, nem no seu intestino, nem no seu pulmão e joelho, nem na sua coluna, nem no pâncreas, muitos menos no fígado. A narina direita é um pouco maior que a esquerda, mas isso é normal, sua mordida é cruzada, mas você sobreviverá, a tinta do seu cabelo é tóxica, mas ai é só raspar, sua pisada é torta e precisa de um pouco de sol. A cabeça só, que demonstrou algum tipo de atividade anormal
- É um tipo de idiotice, sempre me acontece.
-Ah é!

Antes de pisar para fora daquele lugar infernal, deu uma bela olhada na rua e se sentiu deprimidamente tão parecida. O amontoado todo da cidade lhe causou a breve recordação de quando era apenas um terreno baldio: bem antes da pretensão de construir algo e de ser atravessada, invadida: contaminada. E como não?
Colocou o primeiro pé na calçada tendo que lidar com a constatação e a certeza triplamente mais terrível que era a de estar completamente, transbordantemente, irritantemente e (amar)gamente viva.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Tem dor que dói
tem dor que arde
tem dor que se estabelece
e tem as que passam rápido
que não são a maioria.
Tem dor chorada
Tem dor engasgada
e tem dor que é só dor
silenciosa, lá em algum canto
espreitando ansiosa
na margem do muro
a hora de aparecer, sempre atrasada
diluída no riso
um pouco frágil
tentando ser
em espaços que não lhe cabem.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A senhora do estacionamento

E tinha aquela senhora que a minha mãe sempre encontrava na rua, a roupa era maltrapilha mas a unha estava sempre bem pintada de um escarlate cintilante na mão preta. Até então não havia visto muitos negros na vida (era pequena, e havia ficado anos fora do país), então sempre ficava curiosa com as mãos com a palma branca, e a dela era cheia de anéis de prata carcumida. Ela era uma mulher esquisita, eu sempre me escondia atrás da minha mãe quando ela aparecia, e ela sempre aparecia. Estávamos na rua, eu tranquila no meu sorvete, eu tranquila no meu pãozinho, eu tranquila no meu chocolate e ela aparecia: Ô dona Rose! E era o fim, pois minha mãe sempre me fazia dar o que eu estivesse comendo para ela, para que ela levasse para o filho. E eu, como sempre fui um estômago cheio de fome me ressentia até os ossos de ver minha bisnaguinha indo embora. E lá ia ela toda feliz. Ela tinha um marido que era o seu Bastião, minha mãe sempre o chamava para fazer algum serviço em casa, fazia de tudo o homem: arrumava piso, pia, teto, mulher mal amada. Uma vez a senhora esquisita veio bater na porta de casa falando que ia matar o Bastião que havia embuchado uma menina. Pensei que era bem feito pra quem levava embora todas as bisnaguinhas. Anos depois, andando pela rua me veio o entendimento que esse embuchar tinha natureza diferente.  Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh eu vou matar o Bastião! E arrumava as tetas no sutiã. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaai Dona Rose eu vou matar o Bastião! Matar o Bastião e roubar essa menina linda pra mim. Deus que me livre, pai nosso ave-maria ir embora com aquela mulher, ô cisma que tinha comigo. Eles moravam no estacionamento, quem mora no estacionamento? Eu, se ela me roubasse. E rezava ajoelhada "paizinho do céu não deixa ela me levar pro estacionamento, paizinho do céu que eu consiga comer meu lanche sozinha, paizinho do céu que ela não mate o seu Bastião, porque minha mãe grita quando a pia dá problema". Nunca soube o nome da Dona, mas todo mundo na rua a conhecia. Saía lá dos fundos do estacionamento com a mão na cintura, um lenço na cabeça e um largo sorriso com um dente faltando na parte de baixo. De vez em quando fumava, de vez em quando bebia pinga lá na padaria, de vez em quando sambava quando via a acadêmicos ensaiar na rua. Mas toda a reza feita deu certo, porque no fim das contas, ela nunca me roubou. Só me assistia passar com a minha mãe com um olhar afetuoso o qual nunca consegui entender se era realmente para mim, ou para a promessa de comida que eu significava. Ela falava dos filhos, mas nunca vi nenhum, minha mãe dizia para eu não perguntar, eu sempre fiz muitas perguntas: uma vez, na ânsia de ser roubada, pedi enfim para ver a tal da casa que eu ocuparia e minha mãe virou-me um tapa na bunda por ser curiosa. Quando perguntei do filho, foi na boca. Ainda bem que com o tempo ela parou de me bater, porque nunca deixei de fazer perguntas. O caso é que quando o estacionamento ficou maior, e sendo ocupado por mais gente, a tal da Dona sumiu e as pessoas da rua acharam de bem, já que a quase casa dela emporcalhava a vista da nobre rua do Tucuruvi. O Bastião, pelo que se soube morreu, e a senhora, algumas vezes tive a impressão de vê-la nos ensaios da escola de samba rodando na ala das baianas feliz da vida com a unha sempre escarlate. Mas sempre foi uma impressão, pois parecia que ninguém mais a via, ou só não ligavam mesmo.

O tal do filho, depois de muitos anos, apareceu na porta de casa: Ô dona Rose, que satisfação! Vim agradecer a senhora. E entregou um bolo dentro de uma assadeira amassada. Bolo de laranja, sem calda. Meu coração bateu dentro do peito atônito: Pessoas como Arquimedes entenderiam essa sensação, de ver uma pergunta de anos esclarecida em um segundo ínfimo, em uma batida de porta: ali estava a resposta de minha curiosidade infantil.

-E aquele pedaço de bolo devolveu todos os doces usurpados: estava bem bom.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Passagem

Olha: mais um.

era um travesseiro
cheio de cabelos
dela.
E mais outros pedaços
outras partes de corpo
espalhados pela cama.
Eram braços e pernas
emboladas
eram pele suada
um encontro de pelos
e a resistência inútil
dos cabelos que lhe escapavam
e povoavam o lençol
tingindo tudo de vermelho.

E olha que estavam assim meio down
em todos os idiomas
(a tristeza sempre latente
na ponta da língua)
e olha que eram assim
bem diferentes
(e tão iguais nas discordâncias)
e olha só: outro fio de cabelo,
escorrendo lânguido
pelo travesseiro.

É de pensar: ela dizia
é de puxar: ele dizia
é o atrito do encontro.
Viraram de lado
assim como fazem os românticos
e se fizeram companhia
em suas solidões.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Dora banguela

Ah que saudades da minha Dora. Adorada Dora, que saudades da minha Dora. Era o mantra matutino daquele senhor que passara pela vida dando Adeus aos seres amados. O golpe fatal foi a ida da Dorinha. Nunca a tinha chamado de Dorinha, nem gostava tanto dela assim quando estava viva: a Dora tinha uma irritante mania de se coçar o tempo inteiro e jogava a culpa na circulação ruim; a Dora lavava roupa e louça com o mesmo sabão, a Dora era meio porca, tanto que perdeu os dentes cedo por falta de escovar: a porca dizia que isso era coisa de propaganda americana e que nunca se escovou os dentes como no século XX. A coitada da Dora nunca estudou, era burra, mas aquela boca desdentada e fedida fazia milagres embaixo do lençol: nada como uma boa boca sem dentes para fazer qualquer homem virar os olhinhos. Ah que saudades da Dora, era uma menina quando a conheci e metia-lhe a mão por baixo da saia para vê-la ronronar que nem um bicho: a Dora nunca foi muito gente. Morreu um pouco quando foi tirada do mato, ficava olhando a janela feito ave empoleirada por horas e horas, nunca dava para saber o que pensava porque Dora não gostava muito de pensar. Sempre fazia perguntas descabidas como qual o sentido de viver da forma que se vive e como não se angustiar diante de tanto mundo. Que tanto mundo, Dora? Você é burra? E ele vinha e lhe mostrava o mapa: Não é tanto assim - e com o dedo traçava rotas em cima do mapa - Viu? menor que aquela manga em cima da mesa. Come manga Dora, que fiapo nenhum fica preso na sua boca banguela. E lá ia Dora feliz com a sua sorte descascar a manga. Como ficar na casa depois que Dora se foi? Dora era especial com seu vestidinho pobre de algodão, sua pele encardida, seus pés dançarinos pisando no quadradinho de grama no quintal. Antes de morrer pediu pra ver terra, e o velho levou um vaso. Dora se debulhou a chorar, queria terra. Ô mulher burra da boca de ouro. Ah Dora, se eu tivesse lavado seus cabelos, ah Dora se eu tivesse quebrado o concreto do pátio do quintal e tivesse plantado um pé de alecrim, ah Dora, como ficar nesta casa com tantos retratos e as manchas de sujeira que você nunca conseguiu, na verdade, nunca quis limpar? Dora dizia: É o tempo tomando espaço no móvel escuro; é o desgaste se fazendo presente na parede: a morte espiando, benzinho. Devia ter feito algo com a cabeça maluca da Dora, falava cada coisa aquela mulher! E ele amou cada dente que caiu, em segredo guardou todos e agora os carregava no pescoço em um colar. Um vizinho disse para ele: Reforma a casa! Pinta as paredes, troca as fotografias, arranja uma moça. Como explicar que moças possuem dentes? Enterrou o último de seus amores no cemitério central num caixão barato de madeira clara e detalhes de plástico prata. Dora nunca ligou pras riquezas, então não ia ser agora que ia gastar dinheiro com caixão. Tchau Dora, minha bem amada, o travesseiro ainda exala o cheio azedo da sua pele suada de pesadelos. Enterrou-a com todos os santinhos: a Dora adorava aqueles santos, mas não sabia rezar direito. 

Decidiu então reformar a casa, e como era muito esperto aquele velho, fez na casa o que fazemos com as grandes dores: sobrepôs cada azulejo com outro de gosto duvidoso, colocou papel de parede em cima de outro velho papel, pintou as cerâmicas do banheiro com rolo de tinta, quebrou o concreto do pátio até achar terra. E assim viveu, alguns poucos anos mais, sobrepondo pisos, paredes e cavando buracos no chão até perceber que a casa havia se achatado: assombrado concluiu que não haveria espaço para outra pessoa ali dentro e finalmente ficou em paz. Ah dorinha, todos esses anos, e agora entendo quando você dizia que azulejo era frio. Morreu em meio esse arroubo de lucidez no piso que era quase teto. A casa ficou muito tempo ali como um monumento a saudade que aos poucos não se soube de quem. Os vizinhos falavam de um velho excêntrico que um dia se pôs a colar azulejo para preencher espaço, mas era uma história desinteressante: inclusive, diziam, o piso original era mais bonito.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Das coisas que não se apagam

No fundo da tela a tal da mensagem:
minúscula em um celular
falava de um tal de amor imenso
nem pra ser em papel de carta
pra deixar amarelar

a mensagem piscava
na luz infernal
rolando debaixo do meu dedo
essa tal de tela touch:
um toque e tudo se desmancha

E não haverá durex para remendos
nem papel picado no lixo
é só um botão, e não haverá rastros
a tecnologia conseguiu inventar o tal do amor etéreo:
a virtualidade deixou as palavras desnudas de corpos.

Posso deixar então, por ora
o amor amado
suspenso na memória do aparelho
há coisas por dentro de mim
que precisam ser arquivadas

Ah benzinho, de todas as falas poupadas
de todos os berros contidos
de todo o silêncio trocado
essa mensagenzinha nanica
era a minha favorita.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ser apaixonado

E então ela quis urgentemente, ardentemente esquecer. Rogou em claro e bom som, para si e para o mundo, que queria que seus neurônios oxidassem e que, pouco a pouco, seus grandes monumentos perdidos no labirinto da memória fossem sucumbindo finalmente depois de tamanhas intempéries, as quais até então resistiam frágeis e desfigurados da acidez bruta dos desencontros da vida. Erigidos como marcos de velhas conquistas de velhas guerras travadas, viu a desilusão corroer-lhe o cérebro o peito e o estômago. Era um corpo só de história, mas um corpo sem futuro. Que derrubem, pedaço por pedaço e que a relva se apodere, mostrando que, simplesmente não importa: traz à tona o perecível, da carne, da ideia, da memória. O que se ergue e mantém-se de pé não nos cabe construir. Essas coisas, que vão além de nossas mãos, além de nossa vontade e escolha, nos observam silenciosas, passar, simplesmente passar. E que importa, esse coração tão manso? Já não cabe mais em si e já não bombeia os disparos frenéticos ao vislumbrar o tal do ser amado, este que, no final das contas não existe. Amou o amor, simplesmente e puramente, amava o fato de amar e não deixou que ninguém usurpasse este lugar para que fosse ocupado por um ente real, e passageiro.

-Mal dos românticos

Entregou-se então na tentativa de esquecer, largou-se de si, do cuidado com o corpo, da consciência, do apego e mergulhou fundo na tenra melancolia de não mais querer ser, uma tentativa de existência ínfima e vulgarmente despretensiosa, muda e surda dos movimentos internos, livre de reflexão, significação ou qualquer tentativa de entendimento que não fosse essa: a de ser passagem, breve, desoladamente, desesperadoramente breve. Não havia muito jeito: como dissuadir um ser romântico de seu propósito? Como descontaminar o que parece candidamente limpo? Não há volta, nem dor, nem reparos: não há mais nada. Nada que não possa ser derrubado, desfeito, desajustado. Fenece, principalmente os de coração manso atormentados pela febre de um estado de espírito doentio: o amoroso. O amor exige certo estado psicótico, certa cisão, esse desmanche do corpo, se diluí desfronteiriço esparramado no limite do amargo.
Amargor - na ponta da língua, na boca do estômago, no olho do cú: não poupa nenhum pedaço. Caminhamos perturbados largando falsos segredos em velhas gavetas: elas resistirão, com milhões de confissões ardorosas, papéis de cartas manchados e encardidos: ilegíveis com merda de algum inseto insensível. Cartas de amor são comida de traça. enchem o estômago de invariáveis angústias, defecam felizes as mazelas das gentes. Já ela na sua tentativa de esquecimento enche a boca de terra no desespero de estourar em flor, mas cá entre nós, sabemos que disso só vai nascer matinho: até a flor irrompe sozinha, independente e cheia de si. Ela não, a boca alargada como um vaso.

- O que aconteceu com aquela moça?
- Deve ser maluca, e só.

Até quis responder que aquele estado provinha de um...havia esquecido o quê.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Je t´aime Mon amour

Eu costumava gostar mais do Romeu aos 9, mas é um fato que filmes de romance ainda me fazem chorar e acreditar em uma série de situações descabidas. Adoro um drama. Adoro desencontros escabrosos regados a um sofrimento intenso, gestos trágicos, frases impactantes e jogadas de cabelo colossais enquanto o outro lhe observa ir andando. Acho um charme, mas é muito difícil ser charmosa em São Paulo. Outro dia desci de um carro no meu melhor estilo "Não baby, nós nunca tivemos Paris, nem Texas, nem Viena nem nada", joguei meu chale para trás mas tropecei na guia, bati a canela no poste e ganhei um puta roxo. Sem contar as risadas diante dessa construção de cena patética. Não me sobrou nada além de juntar meu resto de dignidade, dar um sorrisinho de "não me importo" e ir embora.  Deveriam existir cortes nesses momentos, mas é isso, cenas funcionam em filmes. O Humphrey Bogart era menor que a Ingrid Bergman, e na icônica cena de despedida dos dois ele estava em cima de um banquinho, mas isso não mostram. Assim como não mostram nenhuma atriz pornô se engasgando enquanto...trabalham. Enfim, é o tipo de coisa que deviam nos alertar, sabe, para não gerar expectativas e para que não nos tornemos megalomaníacos com situações simples. Pois, sem os cortes, a direção, a maquiagem e as roupas muito legais, nos tornamos apenas uma cópia de carbono manchado de algo que é, na sua essência, ficcional. Minto, não sei se ficcional, mas um ponto de vista um tantinho descolado: uma ideia, recorte, representação, sei lá como chamar. Lembro de quando li Sonhos de uma noite de verão, e que, dentro da história, tinha um grupo de teatro que queria fazer uma peça, e enquanto apresentavam ficavam avisando o público que aquilo era só representação, que eles não eram quem diziam ser, eram apenas personagens, então, para que não confundissem. Li esse livro com 11 anos e lembro de achar muita graça para a advertência dos atores, pois me parecia óbvio. Hoje tenho exatamente o dobro da idade e, ironicamente, constato que era uma advertência realmente plausível. Sábio Shakespeare: inventou toda aquela baboseira romântica, mas lembrou de alertar que era...invenção.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Criança brincando no jardim

Criança. Era uma criança brincando no jardim.
Uma criança brincando no jardim protegida
protegida por uma máscara
ou algo do tipo
qualquer coisa do tipo
uma máscara azul na cabeça careca
e branca
máscara focinheira
máscara hospitalar
máscara para sanarsalvarlivrar o pulmão
de ar tóxico.
Protegia sim, seu pulmão frágil
os brônquios alvéolos e capilares
talvez doentes
talvez ocos
talvez repletos
de ar do mundo, a parte quase limpa.
Brincava distraído sobre a grama
protegido
mas não podia cheirar flor.

sexta-feira, 21 de março de 2014

ás vezes me esqueço como se escreve

Eu ensaiei, pelo menos, 3 textos que não consigo acabar. Não que eu ache que todo texto deva ter fim ou algo do tipo. Na verdade, sou simpática a textos que não terminam, ou pessoas que acrescentam nas entre-linhas partes que pudessem estar faltando, dão continuidade, misturam com outros, afinal, o texto não está para outra coisa além de trazer à tona o que em geral já sabemos. Textos, em geral, não trazem muita coisa nova, tirando, claro, os textos científicos cheios de tese e nhenhé, mas estes me dão a sensação de repetição algumas vezes. Falamos das coisas acreditando estar dando a luz a algo inédito, marretando a cabeça das pessoas com o novo, ou compartilhando a nossa percepção de mundo com alguém que não a tenha. Tudo baboseira. Escrever é um ato prepotente, principalmente quando cremos que o que escrevemos é exclusivo e único. Há algo de mágico em escrever, é verdade, mas nada do que é escrito é nosso, entende? Eu assino, ás vezes, assino mesmo e fico toda orgulhosa, e ai as pessoas dão uma lida, gostam, não gostam, mas enfim, leram, e isso dá um certo orgulho, mas é um orgulho babaca. Agradeçam ao mundo, da próxima vez, pois se quem escreve o faz, é por conta do mundo, e das pessoas e das coisas que estão nele, escrever é quase como tomar emprestado. A coisa, é que escrever é o espaço da descompostura. Só isso. Se eu fosse menos fechada, talvez escrevesse menos. Mas como não me descomposturo no cotidiano, rasgo toda a cautela quando escrevo. Mas agora, ando sem ter o que escrever. E não é por falta de olhar o mundo: Há pouco descobri que existem outros ângulos de observação, diferentes do que estava acostumada, e nossa, o mundo é grande mesmo, estou apavorada, ai paizinho. Ai resolvi ler esse monte de coisa que fico escrevendo e achei engraçado que, desde quando comecei a escrever, praticamente escrevo sobre as mesmas coisas. Mesmas. Porra, as mesmas coisas há quanto tempo? Ás vezes mais melosa, ás vezes mais ácida, ás vezes mais pretensiosa e todo aquele nhenhé e firula para fingir que eu manjo de algo do que eu estou falando, mas sempre a mesma merda. E ai não tive muita vontade de terminar os outros que eu comecei, até tinha um engraçadinho, de uma mocinha que gostava de desvirginar meninos. Sei lá porque estava escrevendo aquilo, entende? Essa baboseira de quando a gente descobre que faz alguma coisa, e se sente na obrigação, a partir daquele momento, de fazer. As coisas são mais naturais, alô, mundo! NATURAIS. Até queria terminar aquilo que comecei, foi assim que eu aprendi "termine o que você começa", mas nunca terminei nada, quase nada. Tenho certo gosto mesmo, de deixar incompleto, deixar uma lacuna lá, no infinito, brilhando, para que em uma outra dimensão aquilo possa ser preenchido de outra maneira. Isso de definitivo nunca me cativou, apesar de ter descoberto que demoro para sair do lugar, tipo caramujo quando despenca da parede, só nessas situações. Caramujos são meio burros, coitados, sempre achei, bicho burro, não dá muita dó de matar não, mas entendo que deve ser difícil tentar subir uma encosta na condição dele. O fato é: não sei muito mais o que escrever. Talvez se eu estivesse deprimida, ou querendo morrer, mas meu cérebro anda silencioso. Deu um pane no dia que eu acordei feliz de novo. Ai que merda, não sei ser feliz não, me torra um pouco saco, sempre achei um estado um pouco irritante, o mundo é cão, não é para ser agradável. E não o acho agradável, ainda, mas tem esse silêncio apaziguador que não me deixa muito escrever, não tenho tido tempo para observar, pois tenho estado nas coisas que observo geralmente, troquei um pouquinho de lugar, e agora penso se alguém me observa escrevendo de mim “olha a trouxa indo lá”. Deve ter, mas não me importo muito. Existe uma surda indiferença com algumas coisas neste exato momento, que não me deixa escrever, estou quase paralisada. Outro dia descobri que vou morrer, e que isso é um fato MESMO. Morrer nunca me foi tão palpável, que se eu decidir me jogar da janela do lugar em que estou agora, agorinha, eu vou me espatifar e explodir, e alguém vai ter que juntar o que esparramou, chamar equipe de limpeza, essas coisas. Que servicinho, hein, desgrudar gente morta das coisas. Deve ficar engraçado depois de um tempo, esse desmanche, esse caos todo. Mas ter esse poder, de que a decisão é minha, nossa, que poder. Só não é melhor que a sensação de não decidir. Essa não-escolha é a melhor escolha, na maior parte dos casos, eu acho. Eu costumava ter uma vista da janela do meu quarto, que não tenho mais porque tem um prédio na frente, e nesse prédio tem pessoas, e elas viraram minha vista, e eu provavelmente a delas, a gente já deve ter se visto pelado até e todas essas indiscrições que janelas causam que não só crimes, mas a coisa é que alguém deveria mudar o significado da palavra horizonte, só para acompanhar essas mudanças de vistas as quais estamos sujeitos o tempo inteiro. O prédio vai cair qualquer dia desses, ou sendo menos dramática, vamos nos mudar, para lugares mais altos, para casas muradas, para pessoas mais peladas. Tanto faz. Tanto faz: o que foi escrito, o que foi sentido, o que foi visto, o que só foi. Ás vezes a gente vira relíquia de nós mesmos, e teimamos em conservar peças que não possuem tanta importância (eu trabalho em museu). Se eu pudesse, botaria fogo nos museus, e na história. Menos na literatura, ela me salva. É uma tábua de madeira no meio do oceano. Mas só porque eu me esparramo no texto, e me acho no meio das linhas e finjo que são minhas. Senão botava fogo também. Não sei muito o que escrever. E não me reconheço muito no que já escrevi mais. Eu comecei três textos que não consigo acabar. Eu acho que foram desvarios de alguém que achou que sabia escrever por um ínfimo segundo. Naniquinho mesmo. Perceber-me de fato no mundo me deixou meio burra, naquele estado de descoberta de novo. Eu sou um ser no mundo. Sei lá o que isso significa, mas estamos ai, mudando de verbo, um que não se refere apenas ao globo ocular, a uma antropologia antiquada e estrangeira. Mas, não tenho muito o que escrever neste momento, não tenho nadinha para escrever, acho que nunca tive, de fato. Fazer xixi, agora, me parece mais importante que me estender na minha falta de assunto. O corpo acordado, olha só, ás vezes me esqueço dele, coitado. Não gosto muito dele não, mas sem ele, bom não tem muito o que se possa fazer. Nem xixi.

- É necessário ser absolutamente moderno

Caso contrário fica muito difícil entender as ondas de mudança dessa...dinâmica contemporânea: efêmero, ressignificação, sujeito, virtualidade, simulacro, idealizações: palavras tão recorrentes no meu vocabulário, mas com conceitos tão mal construídos: pouco entendo a maior parte das coisas que digo, repito por nelas crer, mas a vista é turva para enxergá-las perto de mim, ou longe, ou em qualquer lugar. Estou sempre deitada na barriga do mundo, observando as tangentes se afastarem, ás vezes acho que o que sei é eco. Me fecho entre quatro paredes crendo que esta é a edificação segura para se estar, mas a dúvida sempre me encontra: observo surgir as marcas de infiltração no teto: ele vai cair em cima de mim, a qualquer momento. É o questionamento. Não cai sempre, mas ficam de aviso, derrubando a água suja em cima da minha blusa branca: por vezes me perguntam por onde andei, e penso que sempre estive no mesmo lugar, mas a blusa parece sempre pior, é a goteira, entende? A dúvida que paira acima de mim, se tivesse uma escada tudo seria diferente, mas tenho pernas e um joelho ruim. Danço sozinha embaixo da goteira, e assim a ignoro, rodopio-rodopio-pirueta e termino tirando uma pequena valsinha, fico assim em transe vendo o quarto inundar das rachaduras, é que aqui não tenho medo das gentes e não preciso explicar estes termos do mundo novo: parece que antes de ser eu sou um objeto social: os livros dizem que esse esvaziamento faz parte da minha geração: o hedonismo barato faz parte da minha geração: as multifacetas fazem parte da minha geração: mas só porque nasci nesta geração não quer dizer que faça parte dela, faz sentido? Só sinto as mesmas coisas, as mesmas pressões e as mesmas demandas: existencialistinha fajuta, um pouquinho, termos filosóficos me complicam, apesar de existir estar além de qualquer tentativa racional de explicar. Se gostasse de Alberto Caieiro talvez acreditasse que a metafísica das coisas está nas próprias coisas, Alberto eu te amaria com todo o meu amor não-racionalizado e datado históricamente, mas entendo pouco da complexa questão da simplicade das coisas, quase vulgar. Sou complicadamente comum, errôneamente comum, singularmente comum, tentando entender coisas simples por meio de pretensiosos discursos das gentes que pouco saíram do quarto: rodopiam, todas elas junto comigo.
O artifício da escrita disso tudo não é real: o que me faz escrever é o que chega mais perto do que em mim é verdade, é a minha metafísica, a pouca simplicidade: meu óculos de mundo {[não sei de qual, se interno ou externo, isso é, se existe algum que vai além de mim (já vejo surgir, fina como um fio de cabelo, outra rachadura) a matemática só me ensinou como utilizar sinais de equação para fingir de sei dar ordem às partes]}.

A frase do título é do Rimbaud, e o caso é que nunca li Rimbaud direito, nem sei o que ele quis dizer com a frase mas a achei importante. Gosto do Rimbaud porque ele parou de escrever e foi para a África, ele, sei lá, um belo dia saiu do quarto.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A vida continua, até breve.

Como a minha avó já era velha quando eu nasci, aconteceu de eu ficar esperando o dia em que abriria a porta do quarto dela, tentaria acordá-la e a encontraria morta. Não que isso seja uma vontade, claro, mas é que depois de ver tantas vezes a cabeça dela despencando de sono nos momentos mais repentinos, fica um tanto difícil não pensar nisso. Certa vez ela dormiu no genuflexório que tinha no quarto onde rezava para o Santo Expedito, São Bento, Santo Antônio, Santa Rita, Santa Barbára, Nhá Xica de Baependi, Jesus menino, Jesus Adulto, Sant´Anna e Zé Pilintra. Na verdade, não a culpo: duvido que haja alguém que não durmiria se tivesse que rezar para tanta gente. A única coisa é que tombaria para o lado, não para frente como ela, os pézinhos para o alto com as meias auxiliares de varizes toda frouxa na canela. Nunca perguntei se a meia, no estado em que estava, ajudava para alguma coisa. E o fato é que não perguntarei mais também, pois enfim, o tal dia em que ela dormiria e não acordaria mais fez-se concreto.

A grande questão nunca foi a morte: e sim encontrá-la morta. Sempre gostei muito da minha avó, mas não sou a maior fã de defuntos. Aquela coisa toda deles ficarem duros, aquela boca entreaberta, tem algo de ridículo nisso tudo. Morrer não parece lá o ápice da dignidade, sabe, o jeito que a gente fica, parece uma piada esquisita para quem olha. Bom, para o morto mesmo tanto faz, acho que não liga muito, fica lá tranquilão com as melecas escapando do nariz, dando os últimos peidinhos: morrer é o único momento da vida em que a natureza fisiológica não é incômoda: nem para você, e nem para os outros que estão muito ocupados tendo saudade para ficar fazendo tantos reparos. Mas ai de você se fizer isso vivo, ai.
Em partes, pensando bem, até gosto dos mortos: reparam menos, medem menos e não torram muito o saco com o que você está fazendo. Por isso vou tanto em cemitério: gente morta não palpita quando estamos ansiosos. E isso fica mais claro quando, andando pelas ruas da necrópole, topo com algum morador de cemitério (não de rua). E o que ele faz, como todo bom ser humano vivo? Começa a falar de coisas que você não entende em um momento que você não quer. Mas voltando ao fato, a minha vó um dia não acordou enquanto estava no banheiro. Demorou tanto, que tivemos a indelicadeza de perguntar:

- Ô vó! Morreu ai dentro?

E não é que ela tinha morrido mesmo? Ela sempre falou para tomarmos cuidado com essas brincadeiras. Tenho uma vizinha que diria "é o Karma". Sempre, sempre fala desse tal karma e eu tenho vontade de rolar de rir quando ela começa, nossa cair no chão, mas só quando estou bem e feliz acho o karma engraçado. Quando estou triste procuro prestar mais atenção, nossa, estudo e tal, fico preocupada com o curso do mundo fico repetindo " Om mane padma hum" no metrô e um grande dia ele retoma a graça de novo. O tal do karma é a ironia dos santos que a minha avó rezava, preciso dizer isso para minha vizinha, essa é a revelação. Falando nisso, outro dia perguntei para a minha vó, que rezava tanto, para onde ela achava que iríamos quando a gente morresse:

-Ai filha, não sei. Acho que a gente fica andando por aí...

Porra vó! Andando por ai, sério? Quase explodi de rir, não na frente dela, ou foi? Enfim, andar por ai era a última resposta que eu esperava receber, e ai, quando a encontramos sentadinha e mortinha lá no banheiro, só pude pensar se ela estaria andando por ai. Só espero que ela não tenha esquecido de subir as calças, coitada, andava muito esquecida a velha, uma senhorinha tão elegante, eternamente com a bunda de fora, já pensou?

Ah é, desculpe vó. Talvez isso não lhe importe tanto agora...