segunda-feira, 26 de maio de 2014

Das coisas que não se apagam

No fundo da tela a tal da mensagem:
minúscula em um celular
falava de um tal de amor imenso
nem pra ser em papel de carta
pra deixar amarelar

a mensagem piscava
na luz infernal
rolando debaixo do meu dedo
essa tal de tela touch:
um toque e tudo se desmancha

E não haverá durex para remendos
nem papel picado no lixo
é só um botão, e não haverá rastros
a tecnologia conseguiu inventar o tal do amor etéreo:
a virtualidade deixou as palavras desnudas de corpos.

Posso deixar então, por ora
o amor amado
suspenso na memória do aparelho
há coisas por dentro de mim
que precisam ser arquivadas

Ah benzinho, de todas as falas poupadas
de todos os berros contidos
de todo o silêncio trocado
essa mensagenzinha nanica
era a minha favorita.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O ser apaixonado

E então ela quis urgentemente, ardentemente esquecer. Rogou em claro e bom som, para si e para o mundo, que queria que seus neurônios oxidassem e que, pouco a pouco, seus grandes monumentos perdidos no labirinto da memória fossem sucumbindo finalmente depois de tamanhas intempéries, as quais até então resistiam frágeis e desfigurados da acidez bruta dos desencontros da vida. Erigidos como marcos de velhas conquistas de velhas guerras travadas, viu a desilusão corroer-lhe o cérebro o peito e o estômago. Era um corpo só de história, mas um corpo sem futuro. Que derrubem, pedaço por pedaço e que a relva se apodere, mostrando que, simplesmente não importa: traz à tona o perecível, da carne, da ideia, da memória. O que se ergue e mantém-se de pé não nos cabe construir. Essas coisas, que vão além de nossas mãos, além de nossa vontade e escolha, nos observam silenciosas, passar, simplesmente passar. E que importa, esse coração tão manso? Já não cabe mais em si e já não bombeia os disparos frenéticos ao vislumbrar o tal do ser amado, este que, no final das contas não existe. Amou o amor, simplesmente e puramente, amava o fato de amar e não deixou que ninguém usurpasse este lugar para que fosse ocupado por um ente real, e passageiro.

-Mal dos românticos

Entregou-se então na tentativa de esquecer, largou-se de si, do cuidado com o corpo, da consciência, do apego e mergulhou fundo na tenra melancolia de não mais querer ser, uma tentativa de existência ínfima e vulgarmente despretensiosa, muda e surda dos movimentos internos, livre de reflexão, significação ou qualquer tentativa de entendimento que não fosse essa: a de ser passagem, breve, desoladamente, desesperadoramente breve. Não havia muito jeito: como dissuadir um ser romântico de seu propósito? Como descontaminar o que parece candidamente limpo? Não há volta, nem dor, nem reparos: não há mais nada. Nada que não possa ser derrubado, desfeito, desajustado. Fenece, principalmente os de coração manso atormentados pela febre de um estado de espírito doentio: o amoroso. O amor exige certo estado psicótico, certa cisão, esse desmanche do corpo, se diluí desfronteiriço esparramado no limite do amargo.
Amargor - na ponta da língua, na boca do estômago, no olho do cú: não poupa nenhum pedaço. Caminhamos perturbados largando falsos segredos em velhas gavetas: elas resistirão, com milhões de confissões ardorosas, papéis de cartas manchados e encardidos: ilegíveis com merda de algum inseto insensível. Cartas de amor são comida de traça. enchem o estômago de invariáveis angústias, defecam felizes as mazelas das gentes. Já ela na sua tentativa de esquecimento enche a boca de terra no desespero de estourar em flor, mas cá entre nós, sabemos que disso só vai nascer matinho: até a flor irrompe sozinha, independente e cheia de si. Ela não, a boca alargada como um vaso.

- O que aconteceu com aquela moça?
- Deve ser maluca, e só.

Até quis responder que aquele estado provinha de um...havia esquecido o quê.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Je t´aime Mon amour

Eu costumava gostar mais do Romeu aos 9, mas é um fato que filmes de romance ainda me fazem chorar e acreditar em uma série de situações descabidas. Adoro um drama. Adoro desencontros escabrosos regados a um sofrimento intenso, gestos trágicos, frases impactantes e jogadas de cabelo colossais enquanto o outro lhe observa ir andando. Acho um charme, mas é muito difícil ser charmosa em São Paulo. Outro dia desci de um carro no meu melhor estilo "Não baby, nós nunca tivemos Paris, nem Texas, nem Viena nem nada", joguei meu chale para trás mas tropecei na guia, bati a canela no poste e ganhei um puta roxo. Sem contar as risadas diante dessa construção de cena patética. Não me sobrou nada além de juntar meu resto de dignidade, dar um sorrisinho de "não me importo" e ir embora.  Deveriam existir cortes nesses momentos, mas é isso, cenas funcionam em filmes. O Humphrey Bogart era menor que a Ingrid Bergman, e na icônica cena de despedida dos dois ele estava em cima de um banquinho, mas isso não mostram. Assim como não mostram nenhuma atriz pornô se engasgando enquanto...trabalham. Enfim, é o tipo de coisa que deviam nos alertar, sabe, para não gerar expectativas e para que não nos tornemos megalomaníacos com situações simples. Pois, sem os cortes, a direção, a maquiagem e as roupas muito legais, nos tornamos apenas uma cópia de carbono manchado de algo que é, na sua essência, ficcional. Minto, não sei se ficcional, mas um ponto de vista um tantinho descolado: uma ideia, recorte, representação, sei lá como chamar. Lembro de quando li Sonhos de uma noite de verão, e que, dentro da história, tinha um grupo de teatro que queria fazer uma peça, e enquanto apresentavam ficavam avisando o público que aquilo era só representação, que eles não eram quem diziam ser, eram apenas personagens, então, para que não confundissem. Li esse livro com 11 anos e lembro de achar muita graça para a advertência dos atores, pois me parecia óbvio. Hoje tenho exatamente o dobro da idade e, ironicamente, constato que era uma advertência realmente plausível. Sábio Shakespeare: inventou toda aquela baboseira romântica, mas lembrou de alertar que era...invenção.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Criança brincando no jardim

Criança. Era uma criança brincando no jardim.
Uma criança brincando no jardim protegida
protegida por uma máscara
ou algo do tipo
qualquer coisa do tipo
uma máscara azul na cabeça careca
e branca
máscara focinheira
máscara hospitalar
máscara para sanarsalvarlivrar o pulmão
de ar tóxico.
Protegia sim, seu pulmão frágil
os brônquios alvéolos e capilares
talvez doentes
talvez ocos
talvez repletos
de ar do mundo, a parte quase limpa.
Brincava distraído sobre a grama
protegido
mas não podia cheirar flor.

sexta-feira, 21 de março de 2014

ás vezes me esqueço como se escreve

Eu ensaiei, pelo menos, 3 textos que não consigo acabar. Não que eu ache que todo texto deva ter fim ou algo do tipo. Na verdade, sou simpática a textos que não terminam, ou pessoas que acrescentam nas entre-linhas partes que pudessem estar faltando, dão continuidade, misturam com outros, afinal, o texto não está para outra coisa além de trazer à tona o que em geral já sabemos. Textos, em geral, não trazem muita coisa nova, tirando, claro, os textos científicos cheios de tese e nhenhé, mas estes me dão a sensação de repetição algumas vezes. Falamos das coisas acreditando estar dando a luz a algo inédito, marretando a cabeça das pessoas com o novo, ou compartilhando a nossa percepção de mundo com alguém que não a tenha. Tudo baboseira. Escrever é um ato prepotente, principalmente quando cremos que o que escrevemos é exclusivo e único. Há algo de mágico em escrever, é verdade, mas nada do que é escrito é nosso, entende? Eu assino, ás vezes, assino mesmo e fico toda orgulhosa, e ai as pessoas dão uma lida, gostam, não gostam, mas enfim, leram, e isso dá um certo orgulho, mas é um orgulho babaca. Agradeçam ao mundo, da próxima vez, pois se quem escreve o faz, é por conta do mundo, e das pessoas e das coisas que estão nele, escrever é quase como tomar emprestado. A coisa, é que escrever é o espaço da descompostura. Só isso. Se eu fosse menos fechada, talvez escrevesse menos. Mas como não me descomposturo no cotidiano, rasgo toda a cautela quando escrevo. Mas agora, ando sem ter o que escrever. E não é por falta de olhar o mundo: Há pouco descobri que existem outros ângulos de observação, diferentes do que estava acostumada, e nossa, o mundo é grande mesmo, estou apavorada, ai paizinho. Ai resolvi ler esse monte de coisa que fico escrevendo e achei engraçado que, desde quando comecei a escrever, praticamente escrevo sobre as mesmas coisas. Mesmas. Porra, as mesmas coisas há quanto tempo? Ás vezes mais melosa, ás vezes mais ácida, ás vezes mais pretensiosa e todo aquele nhenhé e firula para fingir que eu manjo de algo do que eu estou falando, mas sempre a mesma merda. E ai não tive muita vontade de terminar os outros que eu comecei, até tinha um engraçadinho, de uma mocinha que gostava de desvirginar meninos. Sei lá porque estava escrevendo aquilo, entende? Essa baboseira de quando a gente descobre que faz alguma coisa, e se sente na obrigação, a partir daquele momento, de fazer. As coisas são mais naturais, alô, mundo! NATURAIS. Até queria terminar aquilo que comecei, foi assim que eu aprendi "termine o que você começa", mas nunca terminei nada, quase nada. Tenho certo gosto mesmo, de deixar incompleto, deixar uma lacuna lá, no infinito, brilhando, para que em uma outra dimensão aquilo possa ser preenchido de outra maneira. Isso de definitivo nunca me cativou, apesar de ter descoberto que demoro para sair do lugar, tipo caramujo quando despenca da parede, só nessas situações. Caramujos são meio burros, coitados, sempre achei, bicho burro, não dá muita dó de matar não, mas entendo que deve ser difícil tentar subir uma encosta na condição dele. O fato é: não sei muito mais o que escrever. Talvez se eu estivesse deprimida, ou querendo morrer, mas meu cérebro anda silencioso. Deu um pane no dia que eu acordei feliz de novo. Ai que merda, não sei ser feliz não, me torra um pouco saco, sempre achei um estado um pouco irritante, o mundo é cão, não é para ser agradável. E não o acho agradável, ainda, mas tem esse silêncio apaziguador que não me deixa muito escrever, não tenho tido tempo para observar, pois tenho estado nas coisas que observo geralmente, troquei um pouquinho de lugar, e agora penso se alguém me observa escrevendo de mim “olha a trouxa indo lá”. Deve ter, mas não me importo muito. Existe uma surda indiferença com algumas coisas neste exato momento, que não me deixa escrever, estou quase paralisada. Outro dia descobri que vou morrer, e que isso é um fato MESMO. Morrer nunca me foi tão palpável, que se eu decidir me jogar da janela do lugar em que estou agora, agorinha, eu vou me espatifar e explodir, e alguém vai ter que juntar o que esparramou, chamar equipe de limpeza, essas coisas. Que servicinho, hein, desgrudar gente morta das coisas. Deve ficar engraçado depois de um tempo, esse desmanche, esse caos todo. Mas ter esse poder, de que a decisão é minha, nossa, que poder. Só não é melhor que a sensação de não decidir. Essa não-escolha é a melhor escolha, na maior parte dos casos, eu acho. Eu costumava ter uma vista da janela do meu quarto, que não tenho mais porque tem um prédio na frente, e nesse prédio tem pessoas, e elas viraram minha vista, e eu provavelmente a delas, a gente já deve ter se visto pelado até e todas essas indiscrições que janelas causam que não só crimes, mas a coisa é que alguém deveria mudar o significado da palavra horizonte, só para acompanhar essas mudanças de vistas as quais estamos sujeitos o tempo inteiro. O prédio vai cair qualquer dia desses, ou sendo menos dramática, vamos nos mudar, para lugares mais altos, para casas muradas, para pessoas mais peladas. Tanto faz. Tanto faz: o que foi escrito, o que foi sentido, o que foi visto, o que só foi. Ás vezes a gente vira relíquia de nós mesmos, e teimamos em conservar peças que não possuem tanta importância (eu trabalho em museu). Se eu pudesse, botaria fogo nos museus, e na história. Menos na literatura, ela me salva. É uma tábua de madeira no meio do oceano. Mas só porque eu me esparramo no texto, e me acho no meio das linhas e finjo que são minhas. Senão botava fogo também. Não sei muito o que escrever. E não me reconheço muito no que já escrevi mais. Eu comecei três textos que não consigo acabar. Eu acho que foram desvarios de alguém que achou que sabia escrever por um ínfimo segundo. Naniquinho mesmo. Perceber-me de fato no mundo me deixou meio burra, naquele estado de descoberta de novo. Eu sou um ser no mundo. Sei lá o que isso significa, mas estamos ai, mudando de verbo, um que não se refere apenas ao globo ocular, a uma antropologia antiquada e estrangeira. Mas, não tenho muito o que escrever neste momento, não tenho nadinha para escrever, acho que nunca tive, de fato. Fazer xixi, agora, me parece mais importante que me estender na minha falta de assunto. O corpo acordado, olha só, ás vezes me esqueço dele, coitado. Não gosto muito dele não, mas sem ele, bom não tem muito o que se possa fazer. Nem xixi.

- É necessário ser absolutamente moderno

Caso contrário fica muito difícil entender as ondas de mudança dessa...dinâmica contemporânea: efêmero, ressignificação, sujeito, virtualidade, simulacro, idealizações: palavras tão recorrentes no meu vocabulário, mas com conceitos tão mal construídos: pouco entendo a maior parte das coisas que digo, repito por nelas crer, mas a vista é turva para enxergá-las perto de mim, ou longe, ou em qualquer lugar. Estou sempre deitada na barriga do mundo, observando as tangentes se afastarem, ás vezes acho que o que sei é eco. Me fecho entre quatro paredes crendo que esta é a edificação segura para se estar, mas a dúvida sempre me encontra: observo surgir as marcas de infiltração no teto: ele vai cair em cima de mim, a qualquer momento. É o questionamento. Não cai sempre, mas ficam de aviso, derrubando a água suja em cima da minha blusa branca: por vezes me perguntam por onde andei, e penso que sempre estive no mesmo lugar, mas a blusa parece sempre pior, é a goteira, entende? A dúvida que paira acima de mim, se tivesse uma escada tudo seria diferente, mas tenho pernas e um joelho ruim. Danço sozinha embaixo da goteira, e assim a ignoro, rodopio-rodopio-pirueta e termino tirando uma pequena valsinha, fico assim em transe vendo o quarto inundar das rachaduras, é que aqui não tenho medo das gentes e não preciso explicar estes termos do mundo novo: parece que antes de ser eu sou um objeto social: os livros dizem que esse esvaziamento faz parte da minha geração: o hedonismo barato faz parte da minha geração: as multifacetas fazem parte da minha geração: mas só porque nasci nesta geração não quer dizer que faça parte dela, faz sentido? Só sinto as mesmas coisas, as mesmas pressões e as mesmas demandas: existencialistinha fajuta, um pouquinho, termos filosóficos me complicam, apesar de existir estar além de qualquer tentativa racional de explicar. Se gostasse de Alberto Caieiro talvez acreditasse que a metafísica das coisas está nas próprias coisas, Alberto eu te amaria com todo o meu amor não-racionalizado e datado históricamente, mas entendo pouco da complexa questão da simplicade das coisas, quase vulgar. Sou complicadamente comum, errôneamente comum, singularmente comum, tentando entender coisas simples por meio de pretensiosos discursos das gentes que pouco saíram do quarto: rodopiam, todas elas junto comigo.
O artifício da escrita disso tudo não é real: o que me faz escrever é o que chega mais perto do que em mim é verdade, é a minha metafísica, a pouca simplicidade: meu óculos de mundo {[não sei de qual, se interno ou externo, isso é, se existe algum que vai além de mim (já vejo surgir, fina como um fio de cabelo, outra rachadura) a matemática só me ensinou como utilizar sinais de equação para fingir de sei dar ordem às partes]}.

A frase do título é do Rimbaud, e o caso é que nunca li Rimbaud direito, nem sei o que ele quis dizer com a frase mas a achei importante. Gosto do Rimbaud porque ele parou de escrever e foi para a África, ele, sei lá, um belo dia saiu do quarto.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A vida continua, até breve.

Como a minha avó já era velha quando eu nasci, aconteceu de eu ficar esperando o dia em que abriria a porta do quarto dela, tentaria acordá-la e a encontraria morta. Não que isso seja uma vontade, claro, mas é que depois de ver tantas vezes a cabeça dela despencando de sono nos momentos mais repentinos, fica um tanto difícil não pensar nisso. Certa vez ela dormiu no genuflexório que tinha no quarto onde rezava para o Santo Expedito, São Bento, Santo Antônio, Santa Rita, Santa Barbára, Nhá Xica de Baependi, Jesus menino, Jesus Adulto, Sant´Anna e Zé Pilintra. Na verdade, não a culpo: duvido que haja alguém que não durmiria se tivesse que rezar para tanta gente. A única coisa é que tombaria para o lado, não para frente como ela, os pézinhos para o alto com as meias auxiliares de varizes toda frouxa na canela. Nunca perguntei se a meia, no estado em que estava, ajudava para alguma coisa. E o fato é que não perguntarei mais também, pois enfim, o tal dia em que ela dormiria e não acordaria mais fez-se concreto.

A grande questão nunca foi a morte: e sim encontrá-la morta. Sempre gostei muito da minha avó, mas não sou a maior fã de defuntos. Aquela coisa toda deles ficarem duros, aquela boca entreaberta, tem algo de ridículo nisso tudo. Morrer não parece lá o ápice da dignidade, sabe, o jeito que a gente fica, parece uma piada esquisita para quem olha. Bom, para o morto mesmo tanto faz, acho que não liga muito, fica lá tranquilão com as melecas escapando do nariz, dando os últimos peidinhos: morrer é o único momento da vida em que a natureza fisiológica não é incômoda: nem para você, e nem para os outros que estão muito ocupados tendo saudade para ficar fazendo tantos reparos. Mas ai de você se fizer isso vivo, ai.
Em partes, pensando bem, até gosto dos mortos: reparam menos, medem menos e não torram muito o saco com o que você está fazendo. Por isso vou tanto em cemitério: gente morta não palpita quando estamos ansiosos. E isso fica mais claro quando, andando pelas ruas da necrópole, topo com algum morador de cemitério (não de rua). E o que ele faz, como todo bom ser humano vivo? Começa a falar de coisas que você não entende em um momento que você não quer. Mas voltando ao fato, a minha vó um dia não acordou enquanto estava no banheiro. Demorou tanto, que tivemos a indelicadeza de perguntar:

- Ô vó! Morreu ai dentro?

E não é que ela tinha morrido mesmo? Ela sempre falou para tomarmos cuidado com essas brincadeiras. Tenho uma vizinha que diria "é o Karma". Sempre, sempre fala desse tal karma e eu tenho vontade de rolar de rir quando ela começa, nossa cair no chão, mas só quando estou bem e feliz acho o karma engraçado. Quando estou triste procuro prestar mais atenção, nossa, estudo e tal, fico preocupada com o curso do mundo fico repetindo " Om mane padma hum" no metrô e um grande dia ele retoma a graça de novo. O tal do karma é a ironia dos santos que a minha avó rezava, preciso dizer isso para minha vizinha, essa é a revelação. Falando nisso, outro dia perguntei para a minha vó, que rezava tanto, para onde ela achava que iríamos quando a gente morresse:

-Ai filha, não sei. Acho que a gente fica andando por aí...

Porra vó! Andando por ai, sério? Quase explodi de rir, não na frente dela, ou foi? Enfim, andar por ai era a última resposta que eu esperava receber, e ai, quando a encontramos sentadinha e mortinha lá no banheiro, só pude pensar se ela estaria andando por ai. Só espero que ela não tenha esquecido de subir as calças, coitada, andava muito esquecida a velha, uma senhorinha tão elegante, eternamente com a bunda de fora, já pensou?

Ah é, desculpe vó. Talvez isso não lhe importe tanto agora...

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Poema noturno

Meu amor não é sempre bonito
nem benevolente.
Ás vezes morro de angústia
e ás vezes te mato de raiva, bem devagar
bem sofrido
e depois te revivo
na outra página, limpa.

Não rascunho as situações
-mentira.
A questão, é que não faz diferença
é essa mania de jogar fora, tudo o que foi pensado
pela janela, toda a razão escapa
por qualquer  fresta.

Até entendo quando desapontado
me perguntas o que passa
o que é, o que está
Mas a palavra, meu bem
é traiçoeira demais
para traduzir corpo em fala

E teus ouvidos míopes
enxergaescutam
parte de mim
e parte do teu estômago:
faminto-nauseado-sensível da acidez natural
das coisas que passam do ponto

Por isso quando questionas
só posso te devolver o silêncio
ensurdecedor
das explosões mudas
do sistema cardíaco-nervoso-respiratório-ósseo-muscular.
Pele é o que menos entendemos: ainda te assustas
da água que brota e escapa escorregando o corpo, e cai.

Deixa eu te dizer: o pensamento pode ser dito
pode ser fala, mas condensa, minimiza
deixa escapar
pequenos detalhes, esclarecedores em sua miudeza
que são os que não me deixam
que lhe abra a porta:
a porta que nem existe.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Eu odeio meu aniversário

Feliz Aniversário o caralho. É o que tenho vontade de dizer todos os anos. Ai que época maldita essa de esperar o aniversário. Gosto muito, muito de aniversário, dos outros. Acho que não existe ocasião melhor para ver pessoas queridas, para celebrar, pular, enfim, fazer qualquer outra coisa que nos permitimos, do que no aniversário dos outros. Mas eu não gosto do meu. Nunca é motivo de felicidade, só de angústia, meu Deus, tá certo que quase tudo no mundo me angustia, nossa, é só me dar uns minutos, minutinhos tiquititinhos que pode ter certeza, eu vou fritar e reduzir tudo em um grande nada e demolir todas as possibilidades com um tanque de guerra Tchuuuuuf Tchuuuuf bombas explodindo tudo. Então, aniversário é uma boa época para fritar. E é uma atitude ingrata, nossa, sei que é, afinal, o amor, o afeto e todo o nhenhé, não se mede por um puto dia do ano, ele é construído com as delicadezas cotidianas, com as trocas, mas porra! Porque as pessoas esquecem de telefonar justo, JUSTO no dia em que você nasceu? Mas igual, e daí? hein? E DAÍ?! Eu mesma esqueço de ligar várias vezes, nossa, várias. Sou péssima para lembrar datas. E nunca foi por falta de bem querer. E quer data mais bizarra que essa, de aniversário? Uma homenagem a si mesmo "louvem-me porque há não sei tantos anos eu nasci". Agora me diz, sério, o que o mundo tem com isso, que eu nasci? Tirando a coitada da minha mãe que teve a barriga esgarçada e meu pai que teve que me sustentar, ninguém tem nada com isso. Na verdade nem eles, né, porque depois que eu nasci, fodeu, virei um "ser no mundo", sei lá o que isso quer dizer, mas é isso, um ser independente como os outros 7 bilhões que estão por ai, e os que nascem, todos os dias. Todo dia é aniversário de alguém, puta merda, que que tem de especial nisso? Mas ai, se as pessoas não lembram, vem esse sentimento, essa onda de renegação que se apodera e deixa as bochechas quentinhas de leve rancor: ai de mim que não sou querida. Ai de mim.Ninguém lembra dos outros 364 dias que foram muito legais e todo mundo lembrou de você. Só no bendito aniversário, que um pobre coitado esqueceu. Eu podia morrer no meu aniversário e ressuscitar no dia seguinte. Ganhar um vale-presente do hospital "passaporte para um coma". Mas deixem flores, por favor, para quando eu acordar eu ver que fui lembrada. Eu odeio meu aniversário, porque entro em estado de surto maluco psicótico depressivo. Quem teve a ideia de me parir, gente do céu no meu aniversário, gente do céu, vou celebrar o que? Mais um ano de vida? E esse ciclo de anos por acaso, por acaso tem alguma mudança significativa no comportamento, na forma como as coisas acontecem? NADA, NÃO INFLUEM EM NADA. Faço as mesmas coisas e fico angustiada na mesma época desde que tenho consciência de mim. Mas lembrem de mim, ai ai, odiaria ficar largada nesse dia que odeio, mas no seu limite, por favor, no seu limite. Aniversário não é legal, é tempo que passa, e que passa a todo momento, é só o lembrete: corre, corre que ele está correndo. Deve tocar Oswaldo Montenegro no fundo, para deixar tudo ainda mais dramático. Falando em música, e as músicas de aniversário? Tosco. TOSCO, ficar atrás de uma mesa com um bolo gosmento, fazer um desejo. Um desejo? Que que eu faço com um desejo? Porque ficam batendo palma? Alô, eu não ganhei o Nobel, só fiquei mais velha. Mas tem gente que se emociona tanto, né, acho bonito, eu também me emociono, ai, ganhar o primeiro pedaço, é bonito. É sempre da vó, né, ou tem aquelas pessoas que ficam em cima do muro e dão pro papai e pra mamãe, ou dão pra si. Tosqueira.

O fato é que eu odeio meu aniversário. Mas não se esqueçam que ele existe, porque eu odeio isso também.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Poeminha de metrô

Não acredito no que disse ontem
E provavelmente, tão logo, já não creia no que digo
direi
hoje.

Do pensamento faço versos tão substanciais quando dunas de areia
resistindo contra o vento.

(Sempre quis saber qual a massa do último suspiro:
Cálculos, calculo e não há produto final)

Intento em coisas que não entendo
Corrompo a clareza com palavras que não sei.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Considerações finais

" Por falta da eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo, 
o bigode pendido sobre a vitrine
(...)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna"

Wislawa Szymborska

Já se pode ouvir o som do verme no armário roendo velhas fotos. Se alimenta com perversa tranquilidade do anonimato de entes já não tão queridos, de pequenas histórias que nada mais são além de silêncio: velhas bocas cheias de terra: pequenos recados que já não são para ninguém.

- Somem os retratos e edificam-se os símbolos, como diria certo ditado.

Pode-se dizer se eram pobres, se tinham fome. Quais eram as roupas, quais eram as joias, quais eram as peles. Como a cidade mudou. Nada mais. Legados ao esquecimento eterno das gerações. Não se fala do amor, das mazelas, dos pequenos feitos, do doce-amargo da vida condizente a todos que estão. Tudo isso se recolhe, e some com o esvair do corpo: quais são os segredos que contam um saco de osso?


Foram nada. E ainda o são.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O doutor disse para não fumar

- A senhorita fuma?
- Pouquíssimo.
-Pouquíssimo? Não existe pouquíssimo quando se fuma. Por acaso você sabe qual é a quantidade que cada organismo aguenta ingerir de tório no corpo? Pode ser assim (e fez um gesto com as duas mãos para indicar algo pequeno, parecido com parênteses), ou pode ser assim (fez o mesmo gesto que lembrava parênteses, mas aumentando o espaço). A gente nunca sabe, então não existe quantidade segura, senhorita. A gente nunca sabe.

Confesso que fiquei um pouco atônita. Por qual raio de motivo você acha que eu me importo com a quantidade de tório no meu corpo? Hein? Eu nem sei o que é tório, isso existe na tabela periódica? Senhor, eu era ruim de química, nossa, era um inferno, por isso nunca poderia ser médica, imagina, ficar falando qualquer besteira de elemento para assustar os outros “Olha, cuidado, tem muito rubídio no seu...pé (para não dizer outra coisa)”. Imagine só se faria alguma coisa dessa. Ô doutor, pergunta para mim da onde vem meu gosto por tabaco. Que me importa o tório? Eu respiro monóxido de carbono, sofro de radiação solar e de tantas outras, a televisão derrete o cérebro, minha comida tem agrotóxico, a carne tem excesso de hormônio, os bolinhos tem gordura trans, a comida é enlatada, industrializada, o salmão é truta, o leite tem soda cáustica! SODA CÁUSTICA! Minha mãe usa essa merda para limpar azulejo, e eu enfio tudo goela a baixo. Vamos correr para ser saudáveis, em meio desse MONTE DE CARRO E ESCAPAMENTOS DE FUMAÇA FEDIDA. Vou parar de comer carne, e comer soja. E por acaso os produtores de soja, de verdura, são melhores que os, que os da indústria da carne? Doutor, ninguém quer saber de nada. NADINHA, e você está me torrando por causa do tório? Aposto, deve olhar vacina, esse moooonte de remédio, prozac, valium e pensar “ que boniteza, que boniteza como caminha a medicina, o ser humano. Viva o Rutherford, viva os átomos, o raio x, a genética...” Mas vou te dizer uma coisa, doutor: Não há o que ser feito por mim. Eu já estou morrendo, ouviu? M-O-R-R-E-N-D-O. Todos os dias morro um tantinho mais. Meu corpo vai se desintegrando a cada minuto, as células falecem e no primeiro tufo de vento elas se espalham no ar e viram sujeirinha. Nhenhé, toda pelo ar, pedacinhos de mim, de você, de todos nós. Morro desde o primeiro golfo de respiração quando nasci. Nasci morrendo já. A coisa é: o quanto demora para o fatídico fim. Que pode ser um tantinho, ou um tantão. E não é o tório, doutor, é a porra da vida! E quando eu penso nisso, fico angustiada, claro, e a gente nunca fala dessas coisas numa roda de conversa, na verdade, pouco falo em uma roda de conversa, ai doutor, se soubesse como sou tímida. Pareço uma Matriuska dentro de uma alcachofra, fechadinha fechadinha. Então, na ânsia de não me expor, acendo um cigarro. Já percebeu como as pessoas não te exigem respostas quando você fuma, doutor? Não, porque você não fuma. Deve responder tudo, “nhenhé sei de tudo”. Mas eu não. Então, de vez em nunca, tenho que acender um cigarrinho, e fico quieta e ai eu fico em paz e com a boca ocupada o suficiente para não falar. Ainda mais quando tem que enrolar o fumo, o tabaquinho na seda, demooooora. Gosto muito de história, doutor, me sinto em tempos passados enrolando fumo, como se evocasse uma ancestralidade e tal, toda essa coisa. Mas no fim das contas, que te interessa? Vai me falar de novo do tório e que tório mata, mas tudo mata, doutor, sinto lhe informar. Doutor,  estou morrendo, ai meu paizinho, estou morrendo. Neste exato momento, vejo eclodir de meus poros o sutil barulho da morte. Eu queria acender um cigarro e assoprar na sua cara, doutor e te encher de tório também. Ninguém liga para nada doutor, não há muito meio de ser tão saudável, não aqui nessa cidade, sem dormir,  achatados, CANSADOS. Violência urbana, pombas cagando na sua cabeça. Doutor, não há remédio que cure uma escorregada no chão molhado com uma cabeça batendo na quina. Tanto faz, você mesmo disse ai, com suas mãos, que a gente não tem como saber. Tanto faz. Tudo vive e morre no seu tempo, certo ou não. Essa é a ironia do universo. Aposto que nem o universo sabe o que é tório. Só você, para ficar torrando o saco.

- Bom, possui alguma doença?
-Não doutor
-Bom, então está tudo bem com a senhorita, você está bem e apta para as suas atividades.
-Estou é?
-Sim, sim.
-Obrigada então, doutor.
-De nada, mocinha! E cuidado com o tório.


...Filho da puta.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Para Toulouse

Aldana acordou e deu de cara com seu gato deitado na poltrona de seu quarto, o que era algo esquisito, já que Toulouse gostava de dormir no armário do canto esquerdo da cozinha. Quando o gato percebeu a surpresa de Aldana, miou algo com "não queria que fosse solitária", deu dois suspiros e depois morreu: os olhos vidrados e o seu corpo enrijecido, com a sombra de seu último ronronar. Ali, bem na frente dela, Toulouse havia batido as botas, ido dessa para melhor, estaria a sete palmos, e todos os outros nomes que damos para a morte. Assim: de forma instantânea e natural. Aldana sabia que seu gato já não estava lá essas coisas: ele babava, tinha siricuticos de gato velho, fazia xixi no seu potinho de água. Então, para poupá-lo, já havia marcado o dia em que iria sacrificá-lo. Claro que teve a delicadeza de não contar nada para ele, mas fez dos últimos dias de Toulouse os melhores de sua vida de gato, regados a atum e leite. Mas 2 dias antes da data prevista, Toulouse decidiu morrer de morte morrida. E como Aldana poderia evitar o choque de descobrir que as coisas morrem naturalmente? Antes de Toulouse, ela já havia sacrificado 3 gatos, 1 cachorro e 2 hamsters, pois achou que fosse a hora. Descobrir que assim como alguns de nós, há outras coisas que morrem naturalmente deu-lhe um frio na barriga. Não estava habituada com a ideia do morrer das coisas do mundo, e sim com o matar: sacrificar, dedetizar, pisar, amassar, arrancar, afogar, estapear. Por exemplo: insetos não foram feitos para morrer, e sim para serem mortos. Nunca havia imaginado que morriam independente de nossa vontade. Pensou em quantos defuntos não haveriam neste exato momento do mundo, tombando de lado em um carpete fofo, na grama ou no asfalto, agonizantes em sua mortalidade. Será que agonizam mesmo? Nunca encontrei esses corpinhos pelo caminho

- A natureza é mais discreta.

Pensou em seu gato que morreu sem alarde nenhum: não chorou e nem fez testamento. Não lamentou a falta do grande amor (coitado, era castrado), não clamou por Deus, não quis ver os familiares. Só precisou de uma companhia rápida e ai morreu. Lembrou-se então dos elefantes: vira em algum lugar, que quando estavam para morrer, se retiravam do grupo e se dirigiam para o cemitérios, sozinhos. Pobre Toulouse, deve ter achado que era meio elefante. Aldana espichou-se na cama e deu uma rápida olhada no espelho: Pálida feito a morte.
Levantou-se finalmente para recolher o corpo de seu gato, ainda quentinho. Viu que do corpinho de Toulouse, algumas pulgas abandonavam o barco. Vivia dizendo a Toulouse para evitar os passeios noturnos por conta dessas coisas, e a lembrança de seus monólogos com o gato embargou-lhe os olhos de irremediável saudade. Até pensou em amassar as pulgas, mas decidiu por deixá-las viver sua pulguice até o limite, e que morressem a hora que lhes desse na telha.