quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Poema noturno

Meu amor não é sempre bonito
nem benevolente.
Ás vezes morro de angústia
e ás vezes te mato de raiva, bem devagar
bem sofrido
e depois te revivo
na outra página, limpa.

Não rascunho as situações
-mentira.
A questão, é que não faz diferença
é essa mania de jogar fora, tudo o que foi pensado
pela janela, toda a razão escapa
por qualquer  fresta.

Até entendo quando desapontado
me perguntas o que passa
o que é, o que está
Mas a palavra, meu bem
é traiçoeira demais
para traduzir corpo em fala

E teus ouvidos míopes
enxergaescutam
parte de mim
e parte do teu estômago:
faminto-nauseado-sensível da acidez natural
das coisas que passam do ponto

Por isso quando questionas
só posso te devolver o silêncio
ensurdecedor
das explosões mudas
do sistema cardíaco-nervoso-respiratório-ósseo-muscular.
Pele é o que menos entendemos: ainda te assustas
da água que brota e escapa escorregando o corpo, e cai.

Deixa eu te dizer: o pensamento pode ser dito
pode ser fala, mas condensa, minimiza
deixa escapar
pequenos detalhes, esclarecedores em sua miudeza
que são os que não me deixam
que lhe abra a porta:
a porta que nem existe.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Eu odeio meu aniversário

Feliz Aniversário o caralho. É o que tenho vontade de dizer todos os anos. Ai que época maldita essa de esperar o aniversário. Gosto muito, muito de aniversário, dos outros. Acho que não existe ocasião melhor para ver pessoas queridas, para celebrar, pular, enfim, fazer qualquer outra coisa que nos permitimos, do que no aniversário dos outros. Mas eu não gosto do meu. Nunca é motivo de felicidade, só de angústia, meu Deus, tá certo que quase tudo no mundo me angustia, nossa, é só me dar uns minutos, minutinhos tiquititinhos que pode ter certeza, eu vou fritar e reduzir tudo em um grande nada e demolir todas as possibilidades com um tanque de guerra Tchuuuuuf Tchuuuuf bombas explodindo tudo. Então, aniversário é uma boa época para fritar. E é uma atitude ingrata, nossa, sei que é, afinal, o amor, o afeto e todo o nhenhé, não se mede por um puto dia do ano, ele é construído com as delicadezas cotidianas, com as trocas, mas porra! Porque as pessoas esquecem de telefonar justo, JUSTO no dia em que você nasceu? Mas igual, e daí? hein? E DAÍ?! Eu mesma esqueço de ligar várias vezes, nossa, várias. Sou péssima para lembrar datas. E nunca foi por falta de bem querer. E quer data mais bizarra que essa, de aniversário? Uma homenagem a si mesmo "louvem-me porque há não sei tantos anos eu nasci". Agora me diz, sério, o que o mundo tem com isso, que eu nasci? Tirando a coitada da minha mãe que teve a barriga esgarçada e meu pai que teve que me sustentar, ninguém tem nada com isso. Na verdade nem eles, né, porque depois que eu nasci, fodeu, virei um "ser no mundo", sei lá o que isso quer dizer, mas é isso, um ser independente como os outros 7 bilhões que estão por ai, e os que nascem, todos os dias. Todo dia é aniversário de alguém, puta merda, que que tem de especial nisso? Mas ai, se as pessoas não lembram, vem esse sentimento, essa onda de renegação que se apodera e deixa as bochechas quentinhas de leve rancor: ai de mim que não sou querida. Ai de mim.Ninguém lembra dos outros 364 dias que foram muito legais e todo mundo lembrou de você. Só no bendito aniversário, que um pobre coitado esqueceu. Eu podia morrer no meu aniversário e ressuscitar no dia seguinte. Ganhar um vale-presente do hospital "passaporte para um coma". Mas deixem flores, por favor, para quando eu acordar eu ver que fui lembrada. Eu odeio meu aniversário, porque entro em estado de surto maluco psicótico depressivo. Quem teve a ideia de me parir, gente do céu no meu aniversário, gente do céu, vou celebrar o que? Mais um ano de vida? E esse ciclo de anos por acaso, por acaso tem alguma mudança significativa no comportamento, na forma como as coisas acontecem? NADA, NÃO INFLUEM EM NADA. Faço as mesmas coisas e fico angustiada na mesma época desde que tenho consciência de mim. Mas lembrem de mim, ai ai, odiaria ficar largada nesse dia que odeio, mas no seu limite, por favor, no seu limite. Aniversário não é legal, é tempo que passa, e que passa a todo momento, é só o lembrete: corre, corre que ele está correndo. Deve tocar Oswaldo Montenegro no fundo, para deixar tudo ainda mais dramático. Falando em música, e as músicas de aniversário? Tosco. TOSCO, ficar atrás de uma mesa com um bolo gosmento, fazer um desejo. Um desejo? Que que eu faço com um desejo? Porque ficam batendo palma? Alô, eu não ganhei o Nobel, só fiquei mais velha. Mas tem gente que se emociona tanto, né, acho bonito, eu também me emociono, ai, ganhar o primeiro pedaço, é bonito. É sempre da vó, né, ou tem aquelas pessoas que ficam em cima do muro e dão pro papai e pra mamãe, ou dão pra si. Tosqueira.

O fato é que eu odeio meu aniversário. Mas não se esqueçam que ele existe, porque eu odeio isso também.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Poeminha de metrô

Não acredito no que disse ontem
E provavelmente, tão logo, já não creia no que digo
direi
hoje.

Do pensamento faço versos tão substanciais quando dunas de areia
resistindo contra o vento.

(Sempre quis saber qual a massa do último suspiro:
Cálculos, calculo e não há produto final)

Intento em coisas que não entendo
Corrompo a clareza com palavras que não sei.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Considerações finais

" Por falta da eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo, 
o bigode pendido sobre a vitrine
(...)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna"

Wislawa Szymborska

Já se pode ouvir o som do verme no armário roendo velhas fotos. Se alimenta com perversa tranquilidade do anonimato de entes já não tão queridos, de pequenas histórias que nada mais são além de silêncio: velhas bocas cheias de terra: pequenos recados que já não são para ninguém.

- Somem os retratos e edificam-se os símbolos, como diria certo ditado.

Pode-se dizer se eram pobres, se tinham fome. Quais eram as roupas, quais eram as joias, quais eram as peles. Como a cidade mudou. Nada mais. Legados ao esquecimento eterno das gerações. Não se fala do amor, das mazelas, dos pequenos feitos, do doce-amargo da vida condizente a todos que estão. Tudo isso se recolhe, e some com o esvair do corpo: quais são os segredos que contam um saco de osso?


Foram nada. E ainda o são.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O doutor disse para não fumar

- A senhorita fuma?
- Pouquíssimo.
-Pouquíssimo? Não existe pouquíssimo quando se fuma. Por acaso você sabe qual é a quantidade que cada organismo aguenta ingerir de tório no corpo? Pode ser assim (e fez um gesto com as duas mãos para indicar algo pequeno, parecido com parênteses), ou pode ser assim (fez o mesmo gesto que lembrava parênteses, mas aumentando o espaço). A gente nunca sabe, então não existe quantidade segura, senhorita. A gente nunca sabe.

Confesso que fiquei um pouco atônita. Por qual raio de motivo você acha que eu me importo com a quantidade de tório no meu corpo? Hein? Eu nem sei o que é tório, isso existe na tabela periódica? Senhor, eu era ruim de química, nossa, era um inferno, por isso nunca poderia ser médica, imagina, ficar falando qualquer besteira de elemento para assustar os outros “Olha, cuidado, tem muito rubídio no seu...pé (para não dizer outra coisa)”. Imagine só se faria alguma coisa dessa. Ô doutor, pergunta para mim da onde vem meu gosto por tabaco. Que me importa o tório? Eu respiro monóxido de carbono, sofro de radiação solar e de tantas outras, a televisão derrete o cérebro, minha comida tem agrotóxico, a carne tem excesso de hormônio, os bolinhos tem gordura trans, a comida é enlatada, industrializada, o salmão é truta, o leite tem soda cáustica! SODA CÁUSTICA! Minha mãe usa essa merda para limpar azulejo, e eu enfio tudo goela a baixo. Vamos correr para ser saudáveis, em meio desse MONTE DE CARRO E ESCAPAMENTOS DE FUMAÇA FEDIDA. Vou parar de comer carne, e comer soja. E por acaso os produtores de soja, de verdura, são melhores que os, que os da indústria da carne? Doutor, ninguém quer saber de nada. NADINHA, e você está me torrando por causa do tório? Aposto, deve olhar vacina, esse moooonte de remédio, prozac, valium e pensar “ que boniteza, que boniteza como caminha a medicina, o ser humano. Viva o Rutherford, viva os átomos, o raio x, a genética...” Mas vou te dizer uma coisa, doutor: Não há o que ser feito por mim. Eu já estou morrendo, ouviu? M-O-R-R-E-N-D-O. Todos os dias morro um tantinho mais. Meu corpo vai se desintegrando a cada minuto, as células falecem e no primeiro tufo de vento elas se espalham no ar e viram sujeirinha. Nhenhé, toda pelo ar, pedacinhos de mim, de você, de todos nós. Morro desde o primeiro golfo de respiração quando nasci. Nasci morrendo já. A coisa é: o quanto demora para o fatídico fim. Que pode ser um tantinho, ou um tantão. E não é o tório, doutor, é a porra da vida! E quando eu penso nisso, fico angustiada, claro, e a gente nunca fala dessas coisas numa roda de conversa, na verdade, pouco falo em uma roda de conversa, ai doutor, se soubesse como sou tímida. Pareço uma Matriuska dentro de uma alcachofra, fechadinha fechadinha. Então, na ânsia de não me expor, acendo um cigarro. Já percebeu como as pessoas não te exigem respostas quando você fuma, doutor? Não, porque você não fuma. Deve responder tudo, “nhenhé sei de tudo”. Mas eu não. Então, de vez em nunca, tenho que acender um cigarrinho, e fico quieta e ai eu fico em paz e com a boca ocupada o suficiente para não falar. Ainda mais quando tem que enrolar o fumo, o tabaquinho na seda, demooooora. Gosto muito de história, doutor, me sinto em tempos passados enrolando fumo, como se evocasse uma ancestralidade e tal, toda essa coisa. Mas no fim das contas, que te interessa? Vai me falar de novo do tório e que tório mata, mas tudo mata, doutor, sinto lhe informar. Doutor,  estou morrendo, ai meu paizinho, estou morrendo. Neste exato momento, vejo eclodir de meus poros o sutil barulho da morte. Eu queria acender um cigarro e assoprar na sua cara, doutor e te encher de tório também. Ninguém liga para nada doutor, não há muito meio de ser tão saudável, não aqui nessa cidade, sem dormir,  achatados, CANSADOS. Violência urbana, pombas cagando na sua cabeça. Doutor, não há remédio que cure uma escorregada no chão molhado com uma cabeça batendo na quina. Tanto faz, você mesmo disse ai, com suas mãos, que a gente não tem como saber. Tanto faz. Tudo vive e morre no seu tempo, certo ou não. Essa é a ironia do universo. Aposto que nem o universo sabe o que é tório. Só você, para ficar torrando o saco.

- Bom, possui alguma doença?
-Não doutor
-Bom, então está tudo bem com a senhorita, você está bem e apta para as suas atividades.
-Estou é?
-Sim, sim.
-Obrigada então, doutor.
-De nada, mocinha! E cuidado com o tório.


...Filho da puta.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Para Toulouse

Aldana acordou e deu de cara com seu gato deitado na poltrona de seu quarto, o que era algo esquisito, já que Toulouse gostava de dormir no armário do canto esquerdo da cozinha. Quando o gato percebeu a surpresa de Aldana, miou algo com "não queria que fosse solitária", deu dois suspiros e depois morreu: os olhos vidrados e o seu corpo enrijecido, com a sombra de seu último ronronar. Ali, bem na frente dela, Toulouse havia batido as botas, ido dessa para melhor, estaria a sete palmos, e todos os outros nomes que damos para a morte. Assim: de forma instantânea e natural. Aldana sabia que seu gato já não estava lá essas coisas: ele babava, tinha siricuticos de gato velho, fazia xixi no seu potinho de água. Então, para poupá-lo, já havia marcado o dia em que iria sacrificá-lo. Claro que teve a delicadeza de não contar nada para ele, mas fez dos últimos dias de Toulouse os melhores de sua vida de gato, regados a atum e leite. Mas 2 dias antes da data prevista, Toulouse decidiu morrer de morte morrida. E como Aldana poderia evitar o choque de descobrir que as coisas morrem naturalmente? Antes de Toulouse, ela já havia sacrificado 3 gatos, 1 cachorro e 2 hamsters, pois achou que fosse a hora. Descobrir que assim como alguns de nós, há outras coisas que morrem naturalmente deu-lhe um frio na barriga. Não estava habituada com a ideia do morrer das coisas do mundo, e sim com o matar: sacrificar, dedetizar, pisar, amassar, arrancar, afogar, estapear. Por exemplo: insetos não foram feitos para morrer, e sim para serem mortos. Nunca havia imaginado que morriam independente de nossa vontade. Pensou em quantos defuntos não haveriam neste exato momento do mundo, tombando de lado em um carpete fofo, na grama ou no asfalto, agonizantes em sua mortalidade. Será que agonizam mesmo? Nunca encontrei esses corpinhos pelo caminho

- A natureza é mais discreta.

Pensou em seu gato que morreu sem alarde nenhum: não chorou e nem fez testamento. Não lamentou a falta do grande amor (coitado, era castrado), não clamou por Deus, não quis ver os familiares. Só precisou de uma companhia rápida e ai morreu. Lembrou-se então dos elefantes: vira em algum lugar, que quando estavam para morrer, se retiravam do grupo e se dirigiam para o cemitérios, sozinhos. Pobre Toulouse, deve ter achado que era meio elefante. Aldana espichou-se na cama e deu uma rápida olhada no espelho: Pálida feito a morte.
Levantou-se finalmente para recolher o corpo de seu gato, ainda quentinho. Viu que do corpinho de Toulouse, algumas pulgas abandonavam o barco. Vivia dizendo a Toulouse para evitar os passeios noturnos por conta dessas coisas, e a lembrança de seus monólogos com o gato embargou-lhe os olhos de irremediável saudade. Até pensou em amassar as pulgas, mas decidiu por deixá-las viver sua pulguice até o limite, e que morressem a hora que lhes desse na telha.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Anotação

Não entende em qual tempo se insere. Sofre apenas por ver aquilo que se desmancha e assiste ir se esvaindo. Mas é natural: o tempo não solidifica nada, só faz do mundo espuma. É garrancho de impressões passageiras. E agarra-se no cordão umbilical do mundo, pois se crê ainda feto. Crê não poder se alimentar e mal se apercebe do corpo crescido que já não cabe nas velhas camas. A incômoda pele esticando e rasgando sobre os ossos. Mas não entende do tempo, apenas quando este já é desastre: quando as rachaduras já derrubaram a casa. Abre as torneiras e deixa que a água escorra, quer morrer de inundação. Se afogar em si, na lucidez que brota dos poros e nada pelas veias: escorre por buracos e frestas do corpo. Estanca lucidez, não te escapes: reverbera por entre versos confusos que nascem de ecos, e castiga a folha com arranhões de ponta seca , seca feito o colo de quem escreve. É um sem sentido constante, a tentativa de engarrafar o tempo no vidro estilhaçado. O que é matéria rompe, e o que não é também. Não há resistência, nem vontade para.
Só não entende.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O taxista

Fiquei um tempo contemplando seus olhos. Eram azulados: não sei se naturalmente azulados, ou se era catarata, pois havia certa desatenção em sua mirada que me lembrava cegueira. Ora! Que irresponsabilidade entrar dentro de um carro com alguém que não enxerga conduzindo. Tinha que chegar em casa! Havia gente me esperando. Sempre me desesperei com a ideia de esperar alguém que nunca chega. Imagine a tragédia: Moça morre em acidente de carro conduzido por um motorista cego.Cego! Mas quando percebi, já estava dentro dele. Como sou muito dada à devaneios, não é incomum que meu corpo haja por conta própria alguma vezes. Entrei no carro com o motorista cego, sentei no banco de passageiros, e só me dei conta quando a voz dele rompeu bruscamente o silêncio:

-Para onde, moça?

Ai paizinho. Não sei para onde. Deveria ir para casa, mas não quero ir para lá. Quero ir longe, longe! Bem longe, não, não quero ir para casa. Motorista, queria ir para Romênia, você dirige até a Romênia, hein? Sabe, sempre quis ir para lá, gosto do som do idioma e da música, é gosto muito. Deve ser uma beleza, Romênia, você sabe chegar motorista, hein? Sabe? Como saberia, é cego! Não, é melhor pensar que não é, imagine a loucura, meu Deus, andar no táxi com alguém cego dirigindo, não. Tenho que chegar em casa, devo, devo chegar em casa, afinal, me esperam. Como digo para onde vou, se onde vou não é onde quero chegar, preciso ir para casa.

-Motorista, me deixe na R. Lyotard Labé.

E ele lá sabe onde é a essa rua? Coitado, não deve enxergar um palmo a frente no nariz. Cego, ceguinho feito minhoca, deve achar que o mundo é um grande tubo de terra.
E como se o motorista ouvisse pensamentos, logo me respondeu:

-Olhe moça, te levo onde quiser, conheço tudinho. Melhor que meu corpo! Já nem distingo na verdade, eu da rua.

Assustei-me confesso, ao ouvir tal voz vinda de um corpo tão retorcido. E ele prosseguiu:

-Moça, conheço  tudinho dessas rua. Muito tempo de casa, poderia andar nelas tudo sem enxergar nadinha (ai, frio na espinha, era cego ou não?), sei de cor cada calçada e travessa. E os falecido tudo, eu conheci. E tanto faz os que nasceram dispois: eles tem tudo as mesma cara dos falecido, nasceram pra substituir. Sabe né moça, todo mundo tem seu lugarzinho, eu, sou de passagem, sou trânsito, mas lembro bem das coisa tudo. Quem roda muito por ai, vê de um tudo, vive de memória. Por isso digo, aonde a fia quiser ir, eu levo. Conheço tudo as rua - postes, árvores, os gato miando. Sei quando mudam de sentido. Tenho tudo gravado ó (e batia na cabeça com pancadas razoavelmente fortes). Meus óio guarda tudo. Tá vendo essas ruga? Cada ruga é a linha de um mapa em mim. De cada lugar que eu passei, pode reparar! Elas cresce, encurta, cruza, faz curva. E os dente que falta é os buraco das rua (e soltou uma estrondosa risada). Ai, é o tempo moça, chega pras cidade, chega pra gente tudo, envelhecemo tudo junto. Mas conheço tudinho, mesmo assim. Não precisaria enxergar nada, farejo os caminho. Eu sei das coisas: se a arte é uma forma de estar no mundo, minha arte é conduzir. Nem pego ônibus, me agarra uma raiva. Mas me diga, onde quer ir mesmo?

A esta altura, já havia me perdido no mapa-ruga, procurando um destino para mim. Baixos os olhos (cegos?) do motorista, procurei pela minha rua. Procurei a Romênia, procurei a puta que pariu. Se sabe das coisas, não teria que me perguntar onde quero ir!

- É moça, conheço mais da rua que da gente.

Pronto. Dois solitários: uma perdida e um cego enfiados no mesmo táxi. E ele não desistia de falar, nunca. Já estávamos perto de casa. Vinha falando de como as coisas eram antes de elas se tornarem o que são. Nem tudo foi como é, há muito tempo costumavam ser diferentes. Eu fiquei diferente. Houve tempos em que quis voltar para casa, ai passou a vontade.Sou passageira, ouviu? Passageira. O velho não para de falar. Aposto que mora no táxi. Nunca dorme, fica pescando almas perdidas para atazanar com seus pensamentos. Sabedoria de bolso. De taxímetro. Falando em taxímetro, nem olhei em quanto já está essa corrida. Os gregos, quando alguém morria, queimavam o corpo do moribundo com duas moedas em cima dos olhos fechados: era para pagar o barqueiro, para quando o morto tivesse que fazer a travessia para a terra dos defuntos. O taxímetro é a cota, e o motorista meu barqueiro. Com a diferença que eu não estou morta, apesar de muitas vezes me assemelhar com um desmaio.

-Motorista, eu não morri!
-Nem eu, moça.

Enfim, algo em comum. Segui quieta os minutos restantes, até chegar em casa. O motorista sabia das coisas. Na verdade, acho que não era cego não, ele me enganou. Velho tonto. Enrolei um pouco para descer do carro, quando ele me disse:

- Moça, quando precisar, eu sei ir para qualquer lugar. Dessas rua do mundo, conheço tudo. Tá tudo gravado na palma da mão.

E foi-se. Senti um breve amargo na boca. Deixou comigo um cartão com seu número, para quando eu decidisse ir para algum lugar. Saiu com o carro bambeando pela rua, como se enxergasse por meio do contato da roda com o asfalto, dirigia no tato. Cegos não deviam ter carteira, deviam?
Antes de entrar em casa, esqueci que não havia perguntado como se chegava na Romênia. Ele devia saber, não duvidaria se fosse romeno, me diria animado "Sou romeno!", e me levaria para lá com saudade de casa. Casa, era um largado no mundo. Eu tenho casa, e não quero voltar. Mas há o número, posso ligar em breve, agora! Quando decidir para onde quero ir, ligo rápido e vou, não volto. É só eu decidir. Só eu decidir.

(não consegui ligar, ainda)


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

miudezas

E gosto de você, até quando fecho os olhos
todos os dias
e todas as horas
preenchendo, minuto por minuto
de candura e dor
de contrários avessos
de mudez crônica
de imenso e incorrigível
indelicado e mal-educado
amor.

(

engulo seco. os olhos embargam - não sei se de sede, fome ou falta.
o corpo se esquece nesses momentos e tudo desatina em sincero incômodo
e tudo se confunde enquanto gesticulo frases mal resolvidas: grunho em mímica
pois não tenho coragem de romper o silêncio. outro dia me larguei no metrô
queria ser conduzida por caminhos retilíneos. Espiava o mundo passar rápido
espiava o livro da mulher ao lado. queria comer as páginas todas, meu estômago
ele doía de fome, queria comer as páginas e me preencher de ecos alheios
de um amor fictício. que passa rápido. "Pula do trem". "Pula no trem". Deita
deita na linha e espera. morreatropeladaeexplodeopeitooarrastandonochão.
Para tudo virar a mesma coisa. os pedaços teriam gosto de choro. daria para raspar
raspar tudo com uma colher e colocar em um pote: aflição em conserva
era só choro na vida, essa daí: o bom sempre me escorre
feito suor no corpo em dia de sol. brota dos poros e ensaia a queda
escapa na risada. por isso não sou muito de sorrisos. nem de risadas
nem de nada. não sou de nada
tirando essa troglodice dita amor que insiste em me rasgar as paredes do estômago

                                                                                                                              )

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Carta ao Sr.Kappus ( com sua licença, Rilke)

Assim como você, já quis muito também, escrever. Acreditava que por meio da escrita, seria capaz de dar conta do que se faz incompreensível em mim. Sempre usei a escrita como forma de gozo/vômito (principalmente), pois sou deveras ruim para grandes falas e discursos – só expresso por fala, aquilo que de alguma forma já consegui racionalizar, e o que é um presente escorregando para o pretérito: O tempo presente sempre me foi deveras confuso, e na tentativa de explicar o amor que se fazia constante, balbuciava coisas sem sentido, como um sonho interrompido. Fico a dar voltas como o passarinho que procura o ninho, não percebendo que este caiu da árvore com o vento. Escrever, para mim, é então uma fuga da vida: com as palavras invento meu universo e vivo em paz. Ou quase, já que tudo o que escrevo é quase sempre triste.

Caro Sr. Kappus, sempre tive a pretensiosa ânsia de querer traduzir em sinais gráficos sensações que se manifestavam de forma corpórea, e acabei por dar nomes errados aos sentimentos e confundir sensações.  Cansei de chamar a melancolia de amor, o medo de resguardo e preservação, e a tristeza de insatisfação, de vontade e de sonho. Confesso que são todos termos que se dividem por uma linha tênue, e não sei se consigo realmente dissociá-los ainda, mas quando penso nos erros que venho cometendo com isso, tenho uma cômica vontade de chorar: tem que ser muito desatento, não distraído, para cometer este tipo de engano. E já que a maior parte dos nomes estavam errados, sinto dizer que não conheci o ápice das palavras, e nem a transcendência da poesia: senão apenas como um terreno ardiloso e infértil. Sr.Kappus, é dificílimo dizer/ escrever o que se sente no olho do furacão, pois as páginas correm, e as palavras são abafadas no ruído surdo do vento chacoalhando o cérebro. Neste exato momento do mundo, sofro de uma dor terrível, mas tudo o que posso dizer dela, é que gosto muito de colocar o umbigo no sol. Sr. Kappus, peça para um doente de câncer lhe dizer sobre o que tem, e nos tornaremos insensíveis, e dele obteremos algo trágico e desesperançoso. Agora, pergunte no processo de cura, e a gama de sensações se expandirá com a simplicidade e sinceridade que o assunto merece ser tratado. Se tens uma dor terrível, ou uma alegria irremediável, apenas sinta.  Esgote-a, até que tudo vire um grande deserto, e tudo escorra à margem do tempo e se desfaça como areia. É isso que somos, no fim das contas, um punhado de areia, então, para que se importar ou ser ponderado? Sinta, essa é a primeira essência para se escrever uma boa poesia.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A história de nós dois

A vida se move por misteriosos acasos, e, não diferindo disto, foi por uma série de acasos que eles se encontraram. Ela saiu muito mais tarde da faculdade, e ele saiu mais cedo do trabalho carregando uma caixa. Por acaso, ele pegou o mesmo vagão em que ela estava, e não tão por acaso, ele se sentou ao lado dela. Por acaso ela o reconheceu de algum lugar que não lembrava, e não tão por acaso começou a conversar com ele, por conta da bendita caixa, pois ela é deveras curiosa. Gostavam de música, de formas bem diferentes, mas gostavam. Desceram na mesma estação, subiram a mesma rua, e descobriam que, por acaso, eram vizinhos. Um dia se encontraram, e a partir deste dia, adquiriram uma péssima mania de errar absolutamente todos os lugares e horários de coisas que combinavam de fazer, o que, por acaso, os obrigava a conversar. Os dias foram ficando claros, e um dia, assim, ela acordou com um quentinho no peito e um coração saudoso. Era o amor tomando conta do corpo. E vieram tempos de uma sucessão de erros, mas ainda assim, por acaso, se encontravam no meio do caminho. E apesar dos erros, já que a vida é meio errada mesmo, decidiram que enfim, poderiam se apaixonar. E se apaixonaram, nos tempos de clareza e nos tempos turvos. Descobriram a capacidade das palavras como acalanto e como arma. Cuidaram-se com o cuidado que se tem com o próprio corpo, como a extensão de um orgão vital. As dores foram extremamente doídas e a felicidade foi incabida. E transbordaram em vários momentos e houve também o vazio, como a criança que busca a mãe que se esconde por trás do pano, mas que depois volta a aparecer. Eles sempre apareciam, no final das contas, e o acaso foi substituído pela vontade. Casariam e teriam um Dálmata, era o combinado entre eles ( o cachorro poderia ser substituído por um gato, que se chamaria espetini ). Mas a vida desencontra ás vezes, e foram surgindo outras vontades. Mas há de se estar atento: desencontra do fato, e não do amor. Esse nunca faltou. Nem falta. Ora, quem poderia dizer que se perdeu algo no meio caminho? Só um insensível que não assistiu nas pequenas sutilezas cotidianas, os pequenos afetos deixados enquanto caminhavam. Estamos vivos contrariando uma estatística, e quem poderia dizer que não foi um milagre, além de tudo, terem se encontrado? Porque foi um encontro, feliz. Que importa o desfecho?

Esta é uma história feliz.

Falando sobre velhos hábitos

Falarei sobre um terrível hábito, e pouco me importa agora, caro leitor, se escrevo bem esse tipo de coisa, já que não sei se escrevo bem, na verdade, sobre qualquer coisa. É uma carta aberta, mais para mim do que para o mundo, mas tenho a mania incorrigível de crer novo o que todos já sabem, o que faz de mim uma pessoa de obviedades.

Quando aprendi a ler, como toda menina pequena, li muitos contos de fada e histórinhas de objetos fantásticos, histórias estas que faziam com que meu mundo não tivesse a tênue fronteira entre o real e o...o que? o não-real? O onírico? Bom, qualquer coisa desse tipo. Ai, um bendito dia ( não lembro se de sol ou chuva, de calor ou frio ), caiu em minhas mãos o tal livro "Romeu e Julieta". Diziam ser a história de amor mais bonita de todos os tempos. Li. E tive que ler de novo. Afinal, que porra de desfecho é aquele? QUE PORRA DE DESFECHO É AQUELE? É uma pergunta que ressoa no meu íntimo desde então. Foi no auge de meus 8...9 anos,e mais uma série de situações vividas depois, que aprendi que o amor sempre esteve associado à uma certa melancolia, o que na verdade, está, mas, como sempre, fui desmedida com tal sentimento. Desmedida a um ponto de ser mal-educada e invadir um espaço de dor desnecessário e desproporcional. Roubei a dor do mundo, e de forma vil e mesquinha, acreditei que esta era a essência das coisas, quando a essência da dor só faz sentido para ela mesma. Passei a cultivar o hábito de enxergar o mundo baixo a ótica míope dos tristes e dos românticos chatos e incuráveis: aqueles que suspiram "ai de mim" como quem está prestes a morrer o tempo todo: transformam qualquer refeição em algo catastrófico: choram pelo peixe do aquário, não pelo peixe, mas por si se fosse um peixe. Enfim, uma grande besteirinha que vira um besteirão. Para aqueles que cultivam a tristeza, um aviso: ela bate à porta como uma joaninha, mas quando adentra o espaço se torna um grande hipopótamo que não te deixa ver TV ou sentar no sofá. É preciso paciência para que saia, pois, ás vezes a porta fica menor, e a janela é muito alta, e ninguém quer matar um hipopótamo, coitado, mas sabemos que ele deve ir para outro lugar. É simples marretar paredes: voam estilhaços, ficamos sujos, mas depois há jeito de arrumar, sempre há. Não há buraco que não possa ser tapado, a não ser aqueles que não devem ser, como o do nariz. Então, para quem cultiva o hábito da tristeza, experimente respirar um pouquinho melhor de vez em quando, pois temos a mania descuidada de sufocarmos tudo em volta, sem querer. É bom lembrar também, que há outros livros além de Romeu e Julieta ( é óbvio, mas, eu esqueço várias vezes), e que há também a possibilidade de arrancar as últimas páginas, reescrever o final, ou simplesmente não lê-lo. É fácil se enterrar na tristeza como um avestruz faz com a cabeça, a velha ideia do pessimista: não espero nada, pois assim não perco nada. E o que eu venha a ganhar, é lucro. Não sei bem se é desse jeito que escrevi mas a ideia é essa. Mas quem se habitua a ela, não consegue mais perceber o que ganha. Contam-se apenas as perdas e vive-se a vida com mais um  desses bordões dos românticos chatolóides: sou um perdedor no jogo da vida.

Enfim, a tristeza tem sua medida certa para cada ocasião, e deve ser respeitada. Aos tristes de plantão: Somos uns chatos.


domingo, 13 de outubro de 2013

A quase fantástica história da Sra.M.

Depois que o Sr. S partiu, ficou a Sra. M todos os dias no portão esperando o momento em que o Sr. S voltasse arrependido. Apesar da mudança de tom que decretara o fim desta vez, a Sra. M achou que fosse mais uma das indisposições costumeiras do marido. A Sra.M. habituara-se a ser uma coisinha que causava indisposição, então mal se apercebia nos espaços, e como estes foram ficando pequenos ao longo do tempo: as paredes decretando estado de decadência, a pele embolorada pelo úmido choro que preenchia os cantos.
A verdade é: quando ele se foi, surgiu um imenso alívio na Sra. M, até comeu mais de dois biscoitos e escolheu o sabor do suco que tomaria. Sempre deixou escondidinho embaixo dos panos de prato um pacotinho de suco de melancia que esperava o momento de ser tomado. O gosto da vitória era de mofo, pois estava vencido – era a vitória tardia e solitária da Sra. M, que experimentava depois de muito, sorrir com os dentes vermelhos de pó de melancia.

O tempo passou, e os dias então se tornaram desiguais. O Sr. S não retornou à casa, e em cima da mesa já se juntavam os pratos de comida fria à espera da boca a ser alimentada. Os travesseiros começaram a se esvaziar do cheiro dele, e a Sra.M foi invadida pela cruel ideia de que, a partir daquele momento, faria escolhas por si apenas. A solidão então passou a espreitar a porta todos os dias de manhã. As moscas invadiram a casa em uma tarde ensolarada em busca da comida fria em cima da mesa: caíram todas no chão de desolamento (para aqueles que são muito atentos, era possível até ouvir um “ai de mim”, vindo de um corpinho mínimo de anteninhas torcidas de um tedioso vazio ). As pessoas na rua a conheciam como “a senhora do portão”, mas não sabiam ao certo a razão dela estar sempre lá: quase ninguém lembrava do Sr. S, pois a Sra. M. estava quase sempre sozinha nas suas coisas. Conversava sempre consigo baixinho sobre suas futriquinhas para não irritar o marido. O que a Sra. M. não percebia é que a ausência do Sr. S. foi sempre presente: havia um limbo de distância entre ela e ele, mas gostava de ter um corpo preenchendo a cama de noite.

Para resolver o problema, experimentou escrever seu nome em todos os cômodos da casa. Escreveu Sr. S no banheiro, na cozinha, corredor, no travesseiro, na sala e no meio de suas pernas. A Sra. M acreditava que as palavras tinham algo de mágico, então, escrevendo o nome do marido pelos espaços, elas o corporificariam e preencheriam a falta. Mas esqueceu que o papel de parede já descascava; chegou finalmente o momento em que a fronha teve que ser lavada, o corredor era de passagem e o meio de suas pernas, bem, por banho ou por um desejo sinistro de toque, fez do nome do Sr.S um borrão de tinta. E assim viu os dias escorrerem, a tinta ir se apagando e o sentimento de espera se tornar contínuo. Chegou o momento em que havia apenas cadeiras em sua casa, e movia-se por entre os cômodos com um suspiro sonhador que era rompido apenas quando percebia a presença de uma lesma escalando lentamente as quase paredes de sua casa. “Sou uma lesma” um dia concluiu e tentou se matar comendo um punhado de sal. Só houve sede, e a sede despertou finalmente a lembrança de seu corpo, e depois de muito tempo a Sra. M. gritou um grito pavoroso que preencheu toda a casa, a rua e um pouco da rua de trás. Chacoalhava-se em um soluço sem fim, e em um arroubo de violência desmedida, arrebentou todas as cadeiras. Os vizinhos escutavam sem intervir “ finalmente, Sra.M., finalmente”.

Vieram dias de chuva, e a Sra.M. continuava estendida no chão debaixo das goteiras.

Então veio um dia mais claro. A Sra.M. levantou. Pegou uma vassoura e uma pá, e começou a varrer o estrago. Foram quase 147.563 kg de estrago e mais algumas cadeiras. No outro dia foi a vez de retirar as lesmas das paredes, que a essa altura, se assemelhavam à cobras mansas. A Sra.M. ficou banhada daquela gosma lesmática por alguns dias. Tirou o resto do papel de parede e a deixou desnuda: por baixo do papel, havia um tom suave de lavanda encardida. Fez um funeral digno para as moscas angustiadas, e finalmente jogou a comida fora. Lavou todos os pratos.





Já era primavera quando o Sr.S. voltou. Do portão viu que o jardim havia sido modificado e que cresciam pequenos arbustos nos fundos. A luz estava acesa e a casa havia sido pintada. Não pôde deixar de sentir um sentimento familiar de acalanto e lamentou a sua longa estadia fora. Tirou o chapéu, passou os dedos no cabelo e saudoso refez o caminhozinho do portão até a entrada da casa. Abriu a porta. Um cheiro de comida invadiu-lhe as narinas e gritou-lhe ao estômago. Chamou a Sra.M., e de novo, e mais uma vez. Estranhando a demora, encontrou um bilhetinho em cima da cômoda: “ Benzinho, sua comida está em cima da mesa. Não me espere para o jantar, com Amor, Sra.M”


Bem, a comida estava fria.