domingo, 13 de outubro de 2013

A quase fantástica história da Sra.M.

Depois que o Sr. S partiu, ficou a Sra. M todos os dias no portão esperando o momento em que o Sr. S voltasse arrependido. Apesar da mudança de tom que decretara o fim desta vez, a Sra. M achou que fosse mais uma das indisposições costumeiras do marido. A Sra.M. habituara-se a ser uma coisinha que causava indisposição, então mal se apercebia nos espaços, e como estes foram ficando pequenos ao longo do tempo: as paredes decretando estado de decadência, a pele embolorada pelo úmido choro que preenchia os cantos.
A verdade é: quando ele se foi, surgiu um imenso alívio na Sra. M, até comeu mais de dois biscoitos e escolheu o sabor do suco que tomaria. Sempre deixou escondidinho embaixo dos panos de prato um pacotinho de suco de melancia que esperava o momento de ser tomado. O gosto da vitória era de mofo, pois estava vencido – era a vitória tardia e solitária da Sra. M, que experimentava depois de muito, sorrir com os dentes vermelhos de pó de melancia.

O tempo passou, e os dias então se tornaram desiguais. O Sr. S não retornou à casa, e em cima da mesa já se juntavam os pratos de comida fria à espera da boca a ser alimentada. Os travesseiros começaram a se esvaziar do cheiro dele, e a Sra.M foi invadida pela cruel ideia de que, a partir daquele momento, faria escolhas por si apenas. A solidão então passou a espreitar a porta todos os dias de manhã. As moscas invadiram a casa em uma tarde ensolarada em busca da comida fria em cima da mesa: caíram todas no chão de desolamento (para aqueles que são muito atentos, era possível até ouvir um “ai de mim”, vindo de um corpinho mínimo de anteninhas torcidas de um tedioso vazio ). As pessoas na rua a conheciam como “a senhora do portão”, mas não sabiam ao certo a razão dela estar sempre lá: quase ninguém lembrava do Sr. S, pois a Sra. M. estava quase sempre sozinha nas suas coisas. Conversava sempre consigo baixinho sobre suas futriquinhas para não irritar o marido. O que a Sra. M. não percebia é que a ausência do Sr. S. foi sempre presente: havia um limbo de distância entre ela e ele, mas gostava de ter um corpo preenchendo a cama de noite.

Para resolver o problema, experimentou escrever seu nome em todos os cômodos da casa. Escreveu Sr. S no banheiro, na cozinha, corredor, no travesseiro, na sala e no meio de suas pernas. A Sra. M acreditava que as palavras tinham algo de mágico, então, escrevendo o nome do marido pelos espaços, elas o corporificariam e preencheriam a falta. Mas esqueceu que o papel de parede já descascava; chegou finalmente o momento em que a fronha teve que ser lavada, o corredor era de passagem e o meio de suas pernas, bem, por banho ou por um desejo sinistro de toque, fez do nome do Sr.S um borrão de tinta. E assim viu os dias escorrerem, a tinta ir se apagando e o sentimento de espera se tornar contínuo. Chegou o momento em que havia apenas cadeiras em sua casa, e movia-se por entre os cômodos com um suspiro sonhador que era rompido apenas quando percebia a presença de uma lesma escalando lentamente as quase paredes de sua casa. “Sou uma lesma” um dia concluiu e tentou se matar comendo um punhado de sal. Só houve sede, e a sede despertou finalmente a lembrança de seu corpo, e depois de muito tempo a Sra. M. gritou um grito pavoroso que preencheu toda a casa, a rua e um pouco da rua de trás. Chacoalhava-se em um soluço sem fim, e em um arroubo de violência desmedida, arrebentou todas as cadeiras. Os vizinhos escutavam sem intervir “ finalmente, Sra.M., finalmente”.

Vieram dias de chuva, e a Sra.M. continuava estendida no chão debaixo das goteiras.

Então veio um dia mais claro. A Sra.M. levantou. Pegou uma vassoura e uma pá, e começou a varrer o estrago. Foram quase 147.563 kg de estrago e mais algumas cadeiras. No outro dia foi a vez de retirar as lesmas das paredes, que a essa altura, se assemelhavam à cobras mansas. A Sra.M. ficou banhada daquela gosma lesmática por alguns dias. Tirou o resto do papel de parede e a deixou desnuda: por baixo do papel, havia um tom suave de lavanda encardida. Fez um funeral digno para as moscas angustiadas, e finalmente jogou a comida fora. Lavou todos os pratos.





Já era primavera quando o Sr.S. voltou. Do portão viu que o jardim havia sido modificado e que cresciam pequenos arbustos nos fundos. A luz estava acesa e a casa havia sido pintada. Não pôde deixar de sentir um sentimento familiar de acalanto e lamentou a sua longa estadia fora. Tirou o chapéu, passou os dedos no cabelo e saudoso refez o caminhozinho do portão até a entrada da casa. Abriu a porta. Um cheiro de comida invadiu-lhe as narinas e gritou-lhe ao estômago. Chamou a Sra.M., e de novo, e mais uma vez. Estranhando a demora, encontrou um bilhetinho em cima da cômoda: “ Benzinho, sua comida está em cima da mesa. Não me espere para o jantar, com Amor, Sra.M”


Bem, a comida estava fria.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A história do povo que não enterra seus mortos

A impossibilidade surgiu pelo fato de que vivem no subterrâneo.  A razão é parcialmente desconhecida por grande parte dos habitantes:  sabem apenas que quando nasceram já estavam lá. Uns dizem que o mundo “´lá em cima” é exageradamente hostil; outros dizem que seus antepassados padeceram de frio e descobriram que estando no “meio” nunca mais sofreriam desse mal. Outros dizem que desde o começo dos tempos aquele povo sempre esteve ali. Por uma razão ou outra, calhou que essas pessoas desenvolveram para si um sério problema: o que fazer com os mortos?

Religiosos, seguiram a risca o que dizia um certo livro “ e haverá o dia em que todos os homens subirão aos céus, e no portão o Senhor os esperará dando-lhes ás boas vindas”. O dito defunto então teria que subir para o céu: Atônitos por estarem na terra do meio, decidiram que , aprofundando cada vez mais na terra o defunto, tornaria difícil o caminho dele para o céu. A solução então foi colocá-los para cima, onde havia sol e onde se podia ver o céu: Vendo o céu, não haveria como errar o caminho, bastava apenas seguir uma vertical até o portão. O luto então para esse povo é finalmente ir para terra de cima. Prepara-se o defunto como se prepara alguém para uma grande festa: Penduram-lhe adereços e pintam-lhe a cara. O vestem com sua melhor roupa ( há até aqueles que em vida economizam uma fortuna para a roupa do próprio velório. Alguns insistem na mortalha, pois acreditam ser esta menos pretensiosa, mas, para os mais novos,  a mortalha é algo fora de moda), arrumam seus cabelos e perfumam suas partes. Quando os defuntos estão prontos, todas as pessoas conhecidas dele vão até a casa para se despedir. É um processo que dura dias, e alguns percebem no morto uma certa pressa, então preocupam-se apenas em se despedir e desejar boa viagem. Os arrependidos se desculpam, os ofendidos perdoam e as dívidas são pagas. Os apaixonados ganham uma última noite, e alguns até mesmo se casam: Para esse povo, é proibido partir com algo mal resolvido. O da terra deve ser resolvido na terra. Passado esse período, o morto está pronto para ir para cima.


Ir para cima é outra questão: só se pode ir para cima na hora certa, ou seja, na morte. Alguns corajosos tentaram escapar antes do tempo, e voltaram loucos. O tempo de cima é muito diferente. Como para esse povo não existe dia, toda dor é prolongada assim como toda felicidade. Não há passado nem futuro, pois o que chamamos de “dia” é para eles um único. O chamam de vida. E a vida é longa, e tudo que se sente na vida se estende até o fim. Os que subiram e sofreram com essa quebra de tempo, e viram que a vida nasce e morre em instantes tão breves aqui em cima, voltaram loucos e padeceram de um mal chamado solidão. Os solitários são levados para o solicômio e passam o resto da vida suspirando, olhando a janela e pensando que enxergam a troca do sol com a lua. Nos dias de intensa depressão juram com os olhos embargados, que conseguem ver através do teto um céu cinza. "Cinza?", perguntam os doutores do solicômio."Cinza", respondem e voltam a olhar o teto. Então, para despacharam o defunto, eram obrigados a subir com uma venda. Prendem o corpo do defunto em coisas ásperas chamadas “árvores”. Estas árvores, dizem os mais sabidos desse povo, eram o veículo para o céu, pois crescem verticalmente até o dia em que o alcançam. O que conhecem realmente das árvores são apenas as raízes, que alimentam para que possa crescer. É uma verdadeira confusão quando o povo de “cima” encontra esses mortos nas árvores, com tamanha alvura e tão enfeitados. Julgam ser um milagre e os devolvem à terra; o povo do “meio” quando encontra o defunto julga ser um milagre ( uma chance do morto se redimir de algo que esqueceu), e o devolvem para cima.
A maior parte deles não espera o momento de ir para cima: pois, na vida, a espera acaba por ser demasiado longa. Das coisas só enxergam as raízes, e a sua ideia de contagem de tempo está no respirar, que só cessa no momento de mudar de lado


Nota 1 : Pela relação de tempo deste povo, não desenvolveram o uso do ponto final
Nota 2 : O que aqui "em cima" apreendemos como morte, lá é chamado de horário ou merecimento, e só tem real início em contato com a claridade solar ou lunar ( o que para eles não faz diferença, pois os que respiram não enxergam, estão vendados )
Nota 3 : Desconhecem o que é "nublado"

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

( Sem título ) - a história de outra mulher

- Sua xota fede!

Foi com assombro que recebeu esta notícia. Não ficou ofendida, pelo contrário! O que aconteceu foi uma sensação que mesclava felicidade com constrangimento, e dobrou-a em um acesso de riso que se estendeu por longos minutos sem pausa, assistido por um observador confuso. Quando a crise de riso passou, foi ao banheiro finalmente lavar-se para desfazer a confusão. O caso é: uma vez lera que Napoleão pedia à sua amada que não se lavasse enquanto estivesse na guerra, pedia que o esperasse voltar, pois queria impregnar-se com seu cheiro. E de repente, para ela, aquilo se tornou verdade: A espera do bem querer, até então, significava estar isenta de duchas.

E como culpá-la? Afinal, são tantos os erros que cometemos por conta destas histórias de amor.

( Sem título ) - a história de uma mulher

Ficou estendida na cama depois do ato do amor, olhando as costas curvadas de seu bem querer com seu arfar tranquilo. Estaria dormindo já? As únicas coisas que sabe é que não houve abraços no fim do ato, e a promessa feita no começo da noite pelo seu bem querer em seu tom habitualmente grave " Esta é a última vez". Ele dizia gostar dela, mas que sofriam de incompatibilidade ideológica. Atônita, ela se punha a choramingar " Eu largo tudo, não me importo". Ele a olhava carinhoso, e repetia que era por aquilo que ele se apaixonara, se ela mudasse, aquela pessoa não existiria. Vai entender, caralho! Não quero entender, quero ser! E, por ser a última vez, amou como quem morre, e soluçava ensurdecedoramente acreditando que gemia. Agora estavam deitados, cada um para um lado. Ela começou a rezar, rezou com o fervor de alguém que se converte quando recebe uma revelação, rezou para que aquela noite fosse contínua, eterna, para que Eos se esquecesse de estender seu manto de dia sobre os homens. Se pudesse, faria com que nunca mais amanhecesse. Observava com ternura seu bem querer dormir. Acariciava-lhe as costas enquanto olhava distraída para o banheiro: sempre ostentou o fato de que não era depósito de fluídos de ninguém, mas naquele momento ardia, queria ser e queria que ele colocasse o máximo dele dentro dela, que ele a invadisse. Era irônico o que acontecia ali, ela deitada com "aquilo" ( tinha uma dificuldade muito grande para verbalizar o que era: gozo, sêmen, porra - estava constantemente dividida entre a lascívia e o constrangimento), escorrendo por entre as pernas, com a dúvida atroz se limpava ou não aquilo que era a única coisa que sobraria dele mais tarde. Desesperou-se pelo momento que "aquilo" secasse e os lençóis fossem lavados: o pouco que sobraria de seu bem querer escorrendo pelo ralo como qualquer outra coisinha repugnante.

Então amanheceu. Ela ficou ligeiramente pasma com sua estupidez: Afinal, como poderia ter desejado que não houvesse mais Sol?

Levantou da cama sem se limpar, vestiu sua roupa e deixou seu bem querer dormindo. "Ele não percebeu", murmurou baixinho como se pessoas adormecidas tivessem a capacidade de perceber tudo. Foi saindo bem devagar olhando para cada canto do apartamento: queria memorizar cada espaço e cada sujeira na parede. Fechou a porta em um gesto definitivo : Não pode suportar a espera para ver se a promessa se cumpriria ou não.

domingo, 25 de agosto de 2013

Obrigada, Clarice

"...Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo, a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já foram ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? (...) É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar..." 
Clarice Lispector

Depois de muito tempo, retomo a leitura de suas palavras que por tempos foram um refúgio: conversava com seus livros como converso com um grande espelho, e fiz de seus trechos infinitos espelhos de mim, e se há algo que quase entra no eixo, são pelos versos que sempre me iluminaram de compreensão. Te conheci ainda pequena, na história de uma menina ruiva que encontra um basset ruivo caminhando pela rua, e desde então fico na busca de meus pequenos cachorros ruivos quando ando na rua, e tento manter-me distraída na caminhada, pois a espera te cega para o que é realmente importante. Descobri outros, confesso, que me tocaram tanto quanto, mas, nesse meu reencontro contigo é que encontro o início de mim como consciência de presença: Aprendi a construir-me em palavras, e senti a necessidade de começar a colocar no papel ideias confusas que surgiam no âmago em formas estranhas e incorpóreas que queriam romper a barreira da carne - esse constante vômito sentimental, a troca das partes, estômago, vísceras, pulmões, coração e joelho por cores e formas sutis que se desmancham, se fundem, diminuem ou expandem nos acontecimentos da vida, do céu de janeiro à janeiro. Assim como você, não entendo muito o que são as coisas que escrevo, mas sei, no fundo, que entendemos: em alguma parte no universo do sensível, em alguma gavetinha guardada no coração ou no cérebro, em que temos todas as respostas que achamos não ter: sabemos, alguns mais outros menos. Você sabia demais, e eu tento, miseravelmente e com uma admiração que transcende a admiração saber pelo menos 1/5 do que você soube. Escrevo como alguém que escreve para um amigo, e recosto seus livros em meu peito, para que as frases conversem com algo que não se acessa pelos olhos. Nos seus trechos descobri um pedacinho do que quis ser de mim.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A história da primeira galinha na América

E como julgar a pobre galinha de estar cansada de ciscar sempre o mesmo chão? Ai que dor de sua condição, tão galinha, seu corpinho cheio de penas e as asinhas inúteis para tirá-la da granja em que a haviam enfiado. Quem olha uma galinha, pode acreditar que ela não tem muitas ambições na vida, mas a gente nunca sabe o que se passa no coração de outros seres, muito menos corações em que costumamos temperar com açafrão ou comer em espetinhos. Então, logo que se deu conta que não podia voar, nem era tão veloz e provavelmente só botaria medo em minhocas, viu em uma grande viagem a sua chance. Gosto de pensar que ela tinha qualquer nome parecido com Gaetana. Gaetana, a primeira galinha viajante e sua trupe de galinhas cansadas do mesmo chão e do mesmo milho jogado por uma velha rabugenta.
Quando souberam de uma grande viagem, a viagem para o "Novo Mundo", viram ali a possibilidade de um lugar onde galinhas correriam lentas e felizes por terras e terras de infinitas minhocas: haveriam céus e milhos, um bom lugar para colocar ovos. Finalmente as galinhas desafiariam a perversa natureza e driblariam as chamadas condições naturais. Levadas para um barco no colo, Gaetana e mais uma dúzia de galinhas foram colocadas em um granja improvisada no navio. O rugido do mar ressoava por dentro das paredes de madeira úmida do barco, e seus pescocinhos mexiam independente de seus corpos como uma série de pequenos budinhas em meditação. Será esse o mesmo tempo que demoravam os patos para voar de um lado pro outro? ( Era uma pergunta difícil de responder, afinal, nunca havia visto um pato, só escutado falar do tal que diziam ter penas bonitas).  De vez em quando alguma galinha indisciplinada corria para a superfície do barco e nunca mais voltava - Diziam de um tal lugar no barco onde as galinhas ganhavam tratamento especial, tão especial que nem saiam mais de lá. Mas Gaetana, ah esta se mantinha paciente em seu posto, tinha vontade de ver o que era o tal do mar, mas havia escutado falar de estranhas criaturas que ali viviam, geladas e escorregadias: peixes. Preferia manter-se firme para a chegada no "novo mundo". Saíram de sua terra, terra de humanos de olhos puxados, como heroínas, e assim queria chegar: as primeiras galinhas exploradoras da terra. O coraçãozinho palpitava no peito cheio de penas. E vieram dias e noites. Vieram homens de diferentes cores, chacoalhões infinitos do denso mar, até que um dia um humano gritou no começo da tarde um sonoro " Terra à VISTA!". Gaetana foi invadida por uma sensação esquisita que alguns dizem ser felicidade, apesar de não entender o que aquele grito queria dizer, ou o que era sentir-se feliz, mas escutara muito sobre isso no barco, e deveria ser algo parecido. No barco falavam muito de dinheiro, e decidiu que, assim que desembarcasse, arranjaria dinheiros, seja lá o que fosse isso. Logo o barco bateu em algo sólido e os homens atiraram-se na água para empurrar o barco pra algo que chamaram de praia - à essa altura, nenhum dos bichos, nem os bichos humanos estavam em seu lugar, tudo se movia de um lado para o outro, pois todos queriam ver a tal de praia: muito decepcionada Gaetana constatou que o furdúncio todo era por um monte de areia, mas, não estava lá para julgar e sim para viver. Foi a primeira galinha a descer a rampa do navio sentido ao chão, e quando seus pézinhos tocaram a areia, viu-se afundar. O sol estava alto no céu quando a primeira galinha pisou na América, elegante com sua cabeça draconiana.

Pouco tempo depois Gaetana foi morta com um sonoro cléc de pescoço e a cozinharam em seu sangue, em um prato que depois ficou conhecido como  galinha ao molho pardo. Sorte de quem comeu seu coraçãozinho viajante.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sobre o peso das coisas

Navego sem saber se o que me embrulha o estômago é o curso do barco ou as sílabas que se agitam furiosamente querendo criar falas para sentimentos mal-entendidos. Brotam na garganta com uma voz estranhamente conhecida, mas saem do corpo como que em outro idioma - eu não entendo o que quero dizer a maior parte das vezes.
O peso das palavras começa a me afundar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Corpangústia

E sabem muito bem aqueles que passam as madrugadas em uma lucidez assombrosa com os olhos arregalados para o escuro: A angústia é corpórea, visível na mirada descarnada daqueles que possuem desespero de afeto.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Rascunho

É incrível como os pensamentos fluem nos momentos em que estamos de passagem. As grandes revelações sempre surgem destas caminhadas. É como se toda a informação recebida começasse a decantar, acionasse uma pequena válvula por onde as ideias escapam, e, na solidão do trajeto, ser sincero consigo mesmo seja algo viável, afinal, ali, é apenas consigo que se pode dialogar.

Canso de criar personagens para mim para que possa conversar comigo enquanto caminho. E enquanto danço. E enquanto ouço música – a verdade, é que me acho muito chata, então, me disfarço de possíveis mins que me agradariam mais para que possa me aturar. Nestas séries de enquantos do dia, coloco no lugar o que parece fora do eixo, o que, claro, depois de um tempo, volta a envergar – mas enquanto não enverga, são 5 minutos de paz e clareza. Estar com o(s) outro(s) me amedronta, pois acho inevitável (e assumo ser este um erro imensurável), utilizar-me das pessoas como espelho, o que, por sinal, é algo muito injusto: afinal, não me reconheço, e não reconheço o outro neste processo. Algumas cisões são necessárias para que a coisa toda funcione. Me apego ao outro, pois acredito que ai está uma forma de estar: Se estão comigo, é porque, por minha vez, estou também. Quantas vezes sozinha me peguei no desespero de não saber se realmente estava – se realmente existia – e a resposta estava no outro:  acredito que a melhor forma de provar-se ser vivente é na troca.

Fiz uma série de descobertas muito cedo que não me levaram a nada. Minto, fiz uma série de descobertas que me levaram ao nada. A descoberta e a busca pelo tal dito conhecimento me impulsionou a uma busca irrefreável de desconstruir absolutamente tudo: como questão filosófica clássica, comecei matando Deus, e utilizando-me de Dostoievski, “se Deus não existe, tudo é permitido”, comecei então a desconstruir tudo o que me foi possível, chegando ao famoso vazio existencial, o que me fez querer, por milhares de vezes, morrer (mas nem assim resolveria meus problemas, pois, mais que Deus, a morte é a maior das minhas questões: Para quem não crê no corpo, nem no espaço em que está, nem em Deus, o que seria então morrer?)

Como, a partir disto que escrevo, não poderia então, começar a inventar tudo o que sou e que faço? Como sustentar as ditas verdades e viver segundo elas, quando o que sou, e o que quero está em constante transformação, a partir do momento que me ponho no lugar de escritor e personagem todos os dias, a todo instante?

- Tracei uma teia para mim e fiquei presa nos fios que teci, e agora espero o grande bicho me destruir: Do outro lado me observo, esperando o momento propício em que, na fome de mim, me engula.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O que escapa de sua boca é dolorido, atinge em cheio meu corpo frágil feito papel, mas não se pode ouvir as fibras rompendo pois a única preocupação que existe neste momento é a que você possa ser escutado. Mas entenda, não posso mais entrar em competições, pois perco todas. Não tenho fôlego, nem vontade mais de provar qualquer coisa, que nem sei ao menos o que é. Fico ereta sustentando verdades das quais duvido, enquanto no meu íntimo ensaio vontades de mim como uma recém adolescente cria personagens de si para o futuro. Sozinha sou tudo o que preciso de mim: qualquer coisa que não divido com ninguém, mas me assusto ao lembrar que esse futuro que projeto é o meu tempo presente, e que alguém coloca os olhos grandes em mim e me pede abertura para eu ser colocada à prova de coisas que não entendo - mas é o necessário, dizem que é o necessário, para que se possa ocupar um lugar, uma grande vitrine de ganhos - nunca sei qual é o lugar que ocupo.
Se abro a boca, é possível enxergar uma multidão: fica sempre presa no funda da garganta. Para que saia, sou obrigada a arrancá-la, enfio o dedo na garganta na tentativa de causar vômito para que escapem, enfio o punho, o braço inteiro, encaixo os ombros até me engolir e virar-me do avesso, e ali surge a multidão, perto do estômago, com fome de luz. Mas são tímidos, entende? Não querem nada além de ser, o que me obriga, ao competir, utilizar-me do meu não-eu, pois o que há em mim não faz e não vê sentido ao que me pedem. Há estes olhos que me espreitam o tempo todo, mas são incapazes de ouvir o burburinho que me escapa do fundo de mim.

sábado, 22 de junho de 2013

Impermanência

Que faz meu nome fora da tua boca?
Quisera eu enxergar o que observa teus olhos cansados, que não meu seio em riste e meu ventre ansioso. O que te prende em devaneios, e me embaça frente teus olhos?  O que há detrás de minha nuca?

- minha voz soa como um eco: percebo o esforço em voltar e a tentativa de entender as palavras que estouram como um soluço agoniado -

Desconexos. Bastou alguns segundos para que o silêncio se instaurasse entre nós, criando um vão que engolia as frases não ditas. Nos reconhecemos como dois desconhecidos.

domingo, 9 de junho de 2013

Anotações de caderno em tempos distintos

Breve anotação de algo que me aconteceu na semana passada:

Há pouco me peguei rindo sozinha, repetindo uma palavra estranha: Paloma. Passei minutos inteiros repetindo essa palavra com diferentes entonações e tempos, sentindo a boca toda trabalhar a internalização desse som que, com uma leve surpresa, lembro ser meu nome. ( Para quem quiser tentar o exercício, Paloma é uma palavra divertida de pronunciar, tem algo de roliço na forma como sai da boca).
Fui obrigada a anotar em um papel  "meu nome é Paloma" para que não me esquecesse mais ou corresse o risco de cometer algum equívoco. Fui obrigada a rir disso.
Paloma: substantivo próprio, concreto, sujeito da ação, linha de contorno, delimitador de forma. 1ª pessoa do singular.

- Alguma coisa ali se remexia no meu íntimo, fazendo esta tímida saudação

Breve anotação de algo que está acontecendo agora:

Desliguei o telefone a pouco, com água nova no copo. Sempre há água no meu copo, pois necessito de mergulhos constantes para me manter presente. É cheio, mas não transborda. Bebo tudo, mas nunca até o final - seu fim ou seu total preenchimento é algo que sempre deixo suspenso.
Encontrei então meu caderno, o qual havia feito a anotação acima e chorei. Paloma não me faz saudação alguma há alguns dias. Tenho vivido um estado constante de sonolência e ás vezes ausência da vida, onde tudo se desenrola automaticamente. Para ser saudado, precisamos prestar atenção - e não digo de um grande esforço ou isolamento para sentir o mundo - é se fazer presente.

A verdade é que aquela Paloma, perdi: fez sentido naquele pequeno instante. Não há uma linha limitadora, há pequenos pontos que parecem uma linha mas que contém espaços, que são os necessários para que a coisa, no caso a Paloma, exista e se conecte com o mundo ( e agora, agorinha mesmo que escrevo isso, lembro da tatuagem de uma amiga muito querida, que possui um círculo pontilhado no tornozelo- queria te dizer que nunca te achei tão sábia quanto agora). Não existe Paloma, o que existe é tudo aquilo que se consegue juntar em um determinado espaço, que para  acessá-lo, necessitamos que seja inventado um corpo: É algo complicado de explicar, mas é o ajuntamento de todas as pessoas (ou pontos que contornam) e que se encontram no espaço, e vão se cruzando e modificando a água do copo de cada um. Mas a troca da água só acontecesse na presença - quando não estamos, tudo dispersa e só há o vazio: a presença preenche, e o vazio espera ansiosamente servir para algo. Não há muita coisa além desse todo que está em constante transição, e ai, agora, não identifico meu nome de novo. Caso me chamem de João, Maria, planta, memória ou lugar, respondo por todos esses nomes. Pois sou tudo que um dia permiti que se embrenhasse por entre meu espaço de forma presente e verdadeira. Sou o breve espaço da troca.

É claro que há muitos outros que escreveram sobre isso que escrevi acima de forma mais clara, melhor e com um entendimento e uma sabedoria anos-luz maior que a que escrevo. Mas necessitava trazer essa breve compreensão que se assemelha com um vaga-lume perdido em um galpão, com palavras que saíssem desse copo que tenho agora. Na verdade, não há nada de secreto ou revelador, nada que ninguém não saiba ou sinta. Registro pelo simples fato de precisar lembrar e querer dividir - não sei como vou acordar amanhã, e talvez leia isso tudo e ache uma grande bobagem.

sábado, 1 de junho de 2013

Uma volta na cidade paraíso

Muitos são os caminhos a serem percorridos. Logo após a entrada, há uma cidade que se desdobra em horizontais, verticais e escadas circulares a perder de vista. Vielas infinitas, que aportam apenas um corpo de cada vez em sua passagem para o lugar que nunca chega, uma luz distante provinda de um muro que não está.

Um gato mia.

Aquele que segue concentrado em seu caminho norte-sul, na retilínia dos encontros e dos olhares, talvez passe desapercebido pelo ser vivente que respira perto de seu ombro - o paraíso está para quem olha para os lados. Mas para aqueles que se permitem a distração, terão para sempre gravado na retina a imensidão do corpo que dorme ao lado da gente sem fome. Os espaços da cidade, para quem se atreve ver, nunca mais serão os mesmos - os muros serão derrubados, o barulho ficará mais alto, a noite gelará os ossos de medo e de compreensão.
É uma cidade de peculiar riqueza: no centro de seu corpo disforme, caótico e fragmentado, existe uma rígida coluna vertebral a sustentar os aflitos. Remexendo um pouco na sujeira, descascando as paredes com uma colher, é possível encontrar ouro. Não é necessário escavar tão fundo, basta aquele olhar atento de mãe que se pode ver algo reluzir. Existe muita riqueza, na cidade paraíso, em estado bruto. Mas há de se estar atento quanto a se crer rico lá: Quem quer ensinar é quem sai ensinado.