Escuta, quero te abrir largo sorriso
e fazer parte da tua solidão
Quero te mostrar os infinitos guisos brilhantes de céu de interior
te assombrar com misterioso clarão
Um afago no teu peito inquieto
um amor tranquilo
suave
feito sol no fim da tarde batendo no rosto cansado.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
O homem mais alto que eu já vi na vida
Ele era o homem mais alto que eu já havia visto na vida. Muito alto. Alto de não caber nos lugares, alto de ter que andar curvado no metrô, alto de tudo. Um gigante na terra de estaturas medianas E como não ser notado? Aquela massona se deslocando pelos espaços, ocupando quase tudo, com sapatos quase irreais, imensos a pisar no chão, aquele olhar manso de bichão assustado, maldita indiscrição de tamanho. Tinha outros olhos diante do mundo, devia enxergar uma outra linha de horizonte, olhos que viam poucos olhos e muitos cucurutos, e sem querer, podia prever os futuros calvos. Mas devia ter também o maior coração do mundo, pra bombear tanto sangue, precisava de um super coração, e pra ter a cara tão malemolente. Devia caber muita coisa naquele coração, naquele estômago, naquele corpo todo, caberiam uma de mim, 2 chineses, um cachorro e um canário, pra cantar, solitário na andança. Acho também que não podia pular, perigosíssimo. Queria perguntar, como era viver em um mundo que não fora feito pra ele, mas me contive para não ser mal educada. Mas é algo questionável, não? Como é estar em um mundo que não foi pensado pra ti, em estrutura nenhuma, ai tem que virar tatu, se achatar, tentar encontrar um desconfortável encaixe pra caber, tem o mundo inteiro, mas tem que caber naquele espacinho de merdinha. Bom, acho que não é nada muito diferente do que fazemos todos os dias. Mas enfim, nossa, era o homem mais alto que eu já havia visto na vida.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Basta olhar
Sentou a bundona no chão sujo e começou a recolher pedaço por pedaço. Porra! Não bastava ver tudo destruído tinha que ficar limpando, deixa aquela merda lá! Mas não, pacientemente juntava cada fragmento mínimo, limpava e observava como se fosse algo precioso com aquele arzinho infantilóide de alguém que fez uma descoberta muito importante. E aí guardava. Não era bem guardar, ia empilhando os pedaços em um canto pra depois enfiar em um saco e fazer sei lá o que com aquilo. Toda aquela preciosidade de sujeira. Acho que a única coisa intrigante era imaginar de onde seriam aqueles restos. Quem os deixara pra traz. Me diz, hein, que que a gente deixa pra trás? Hein? Porra aquilo serviu pra alguma coisa, foi parte de algo, mas eu não conseguia ver, só ele via, quase conversava com aquele monte de resto. Eu quero saber o que eles dizem! Me diz quais são as coisas que são deixadas pra traz! Eu não quero virar lixo. Não sou resto, não pra mim, mas e pros outros? Já fiz parte de tanta coisa e puta merda, do nada eu não fazia mais. A gente se recolhe? Falta de ar. Eu devo fazer parte de algo. E, cansada, continuei a observar ele recolher os fragmentos do chão. Senti as costas no canto da parede, mas na real, não lembro de ter andado, mas as costas estavam lá, encostadas na quina da parede, escorregando, até que senti o chão. Eu era um amontoadinho de diversos materiais de frente para um outro amontoadinho de materiais, de repente, tão igual. Devastadoramente banal. E ele lá no meio, arrumando as coisas pacientemente. Tirando o excesso de sujeira, o tédio de não pertencer mais a nada. A falta de ar. E ele tratava aquilo tudo como se fosse algo tão precioso. E eu morri de vontade de ser aquilo que ele tanto observava, só pra sentir que de mim, tão resto quanto aquele monte de resto, ainda se podia ver alguma coisa.
Por favor, olha pra mim, então.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Apenas pontuando
E começo a caminhar, sozinha. Viro uma rua, depois outra, ás vezes ria, ás vezes chorava, mas estava ali, caminhando sozinha. O sol começou a afastar a friagem matutina e as pessoas puseram-se a na rua de forma mais confortável. Essas andanças são geniais para tentar por algumas coisas no lugar, estar à deriva. O aleatório te faz ir por caminhos desconhecidos, se perder é necessário ás vezes. Dói no peito se perder, mas se aprendem outros caminhos. Encontrei um bonito. Uma rua comprida cheia de árvores, e estas árvores cheias de flores. A representação máxima da primavera, um colorido quase fantasioso, o chão forrado de tapete de flores. É incrível como inconscientemente sabemos os caminhos que temos que fazer. Sem querer, quase como um pequeno milagre, com toda essa inquietação eu cheguei ali, uma rua de beleza escancarada nos entremeios da Vila Mariana, com chão e céu de flor. Mas nesse momento, caralho, seria capaz de por fogo em tudo.
domingo, 14 de outubro de 2012
Isto não é uma despedida
O que dizer? Vou tentar não ser ressentida ou raivosa, porque as coisas não se tratam disso. São coisas maiores e bonitas, não devem ser tratadas dessa forma. Comecei a escrever imaginando um campo de batalha, e alguém se retirando com uma bandeira branca encardida, humildemente e machucada. Mas não houve batalha, não houve guerra, porque não havia inimigo, nunca houve. E se houvesse algum, apenas os próprios fantasmas. Mas é hora, de quem se desmanchou sozinha, juntar os pedaços e ver que nunca faltou nenhum deles, apesar da sensação de ausência ás vezes de alguns. Ausência da fala, da respiração, da pele. Remexendo algumas lembranças, você percebe que em várias situações eles sempre estiveram presentes, mas as distrações, melhor, as (in)distrações atrapalharam. Não se trata do que foi perdido, e se essa foi a impressão até agora, me desculpe, mas é que neste momento as palavras aparecem embaçadas e fico um pouco sem controle pra organizar as frases. Eu estou inteira. O que foi ganho é a questão. Eu nunca me afoguei de verdade, eu acho que eu prendia a respiração sem querer, era isso. Eu tenho tantas coisas em mim, e que eu só ganhei, só cresci, eu quase virei gente. Humano com H maiúsculo. Eu nunca sonhei tanto e nunca tive tanta força pra isso. Nunca tive um querer tão forte e tão grande e tão arrebatador. Logo eu, que sou tão pequena. E ai eu choro, mas porque eu choro. Eu tive meu conto de fadas e o pós que é quando ele se expande pro campo da realidade. Tive tudo, com direito aos acasos da vida e poema de camões, que sou obrigada a discordar, já que é ferida que dói e se sente sim, mas ela é o machucado e o bálsamo pra vida, que é tão difícil. E nada é finito. Essa é minha nova religião. A gente recomeça, sempre. E dessa vez, não quero guardar em gavetas o que senti. Vou deixar ele aqui, no peito, bem grande, luzindo grande e forte, como sempre foi, porque eu não perdi nada, eu só ganhei. Ele está intocado e bonito, como a primeira vez que descobrimos que ele existia. É isso que me faz crescer e ser melhor, é saber que eu aguento sentir isso, que eu tenho muito coração, até mesmo quando eu duvidava se tinha. " A gente se ilude dizendo que não há mais coração", mas tem. E isso, vai ser meu farol. Seja pra você me encontrar ou te iluminar outro caminho. Vencemos. A gente durou pra sempre em algum momento da vida. Perdurou, é a palavra certa. E me desculpa, se agora o que vou dizer lhe parecer duro, mas na verdade, eu nunca precisei de você, nunca. O verdadeiro é que eu sempre quis você. E as coisas, bom, elas se arrumam. Nada é finito, né? Amém.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Presença
Esperou todo o banheiro fazer vapor para começar a tirar a roupa. Entrou com cuidado no box e primeiro molhou a nuca para depois deixar a água escorrer por todo o corpo, do topo da cabeça aos pés. Todos os movimentos que fazia eram bem suaves, respeitando o rito que ali acontecia. O processo quase religioso de limpeza das partes íntimas, a maquiagem das partes a serem oferecidas à invasão alheia para substituição de sua função original para sua função simbólica -a troca do expelir para o receber.
Se seca com a mesma suavidade com que se lavou. Besunta o corpo de creme, com uma essência floral enjoativamente feminina, veste uma calcinha bonita e um vestido bonito. Ajeita os cabelos com os dedos, pinta o olho, a boca, as faces e espera, espera e espera.
A ânsia da passividade infelizmente confundiu-se com uma incômoda movimentação intestinal que por ironia do destino pôs-se a trabalhar freneticamente depois do ritual de purificação.
Fez-se bonita, mas infelizmente possuía um cu, que em questão de segundos fez com que se desfizesse e a reconectasse com o que tem de mais humano e o que fazemos de mais vergonhoso. Não havia maneiras de seu vestido esconder aquilo.
Se seca com a mesma suavidade com que se lavou. Besunta o corpo de creme, com uma essência floral enjoativamente feminina, veste uma calcinha bonita e um vestido bonito. Ajeita os cabelos com os dedos, pinta o olho, a boca, as faces e espera, espera e espera.
A ânsia da passividade infelizmente confundiu-se com uma incômoda movimentação intestinal que por ironia do destino pôs-se a trabalhar freneticamente depois do ritual de purificação.
Fez-se bonita, mas infelizmente possuía um cu, que em questão de segundos fez com que se desfizesse e a reconectasse com o que tem de mais humano e o que fazemos de mais vergonhoso. Não havia maneiras de seu vestido esconder aquilo.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Tenho sido dona de um bom humor quase mal educado. Esse humor meio barato que a gente pode gastar em qualquer situação, um pouco estúpido, um pouco infantil e um tanto leve. Logo eu, que me fazia sempre tão triste, fui invadida por uma indiferença com relação ao eterno, ao como levar a vida, ao amor. Faço caretas no espelho do elevador, mando beijos pras câmeras da rua, valso sozinha na esquina da Augusta com a Paulista. Sai do canto escuro pra me colocar em baixo do poste de luz, sou o centro do meu universo, minha rotatividade é no meu umbigo, e no de mais ninguém. Faço carinho com a ponta dos dedos na minha testa, gargalho alto, perco a conta do tempo, falo coisas sem sentido nenhum e me esparramo em alguém, meio gato espichado no sol. Sorrio a boca cheia de dentes, faço barulho.
Tenho sido dona de um bom humor quase vulgar, desses que a gente gasta em qualquer lugar, meio indiferente pra dor, pro cansaço, esse bom humor malandro, de quem se atrasa pro trabalho porque ficou sentado na calçada à toa pro acaso.
Tenho sido dona de um bom humor quase vulgar, desses que a gente gasta em qualquer lugar, meio indiferente pra dor, pro cansaço, esse bom humor malandro, de quem se atrasa pro trabalho porque ficou sentado na calçada à toa pro acaso.
O que aconteceu foi o inverso
a liquidez tomou forma
o desmanche habitual
a desorganização das partes
a aflitiva construção
as pálpebras sonolentas
se transformaram
em questão de segundos
ou será que foram minutos?
Não sei do tempo.
Mas ali, exatamente ali
aconteceu um corpo, ou dois, ou três
ou qualquer coisa semelhante
a algo que vaguearia tímido depois
desconcertado e feliz
quase inteiro
quase organizado
quase desabrochado
depois do outono
quase gente.
Ficou nua. Sem incômodos.
a liquidez tomou forma
o desmanche habitual
a desorganização das partes
a aflitiva construção
as pálpebras sonolentas
se transformaram
em questão de segundos
ou será que foram minutos?
Não sei do tempo.
Mas ali, exatamente ali
aconteceu um corpo, ou dois, ou três
ou qualquer coisa semelhante
a algo que vaguearia tímido depois
desconcertado e feliz
quase inteiro
quase organizado
quase desabrochado
depois do outono
quase gente.
Ficou nua. Sem incômodos.
domingo, 16 de setembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
A história da barata
Ontem eu vi uma barata. Mas diferente de minha reação costumeira, eu não manifestei meu desespero habitual, não fiquei tensa. Não era uma barata qualquer, tinha um algo de diferente, e de tão diferente, era quase bonita. Vinha em um passo diferenciado das baratas que vemos por aí, rasteiras e rápidas. Esta barata caminhava com distinta altivez, alongada, dando passos largos para atravessar o espaço. Tinha certa dignidade na forma como movimentava suas patinhas, quase com a consciência de que tinha o direito de coexistir com as outras formas de vida que se faziam presentes. Surgida não sei da onde, afinal, nunca sabemos de onde elas saem, elas simplesmente aparecem quase que em um processo de geração espontânea, a pobre barata teve o infortúnio de ter sido avistada. Clamaram por Deus, mas rogando para que um instinto homicida aflorasse em alguém para que a barata fosse eliminada.
Atônita, fiquei pensando se baratas sabem dar ré. Nunca vi uma barata andando para trás, mas naquele momento tive vontade de gritar para que o fizesse, mas esta, orgulhosa, não mudou seu curso. Manteve-se fiel em seu direito de existir, mas um outro manteve-se fiel em seu direito de fazer-se juiz do universo e em um impiedoso passo esmagou a pobre. Assisti a cena como as amantes assistiam os navios com seus soldados amados zarparem.
Derrotada, a barata foi atirada no lixo.
Atônita, fiquei pensando se baratas sabem dar ré. Nunca vi uma barata andando para trás, mas naquele momento tive vontade de gritar para que o fizesse, mas esta, orgulhosa, não mudou seu curso. Manteve-se fiel em seu direito de existir, mas um outro manteve-se fiel em seu direito de fazer-se juiz do universo e em um impiedoso passo esmagou a pobre. Assisti a cena como as amantes assistiam os navios com seus soldados amados zarparem.
Derrotada, a barata foi atirada no lixo.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Viver é falar de corda em casa de enforcado
O jeito, sabe-se lá, é se desculpar e desculpar quantas vezes for possível. Perdão pela existência, porque é isso. De máscara ou sem, imitando, reprimindo ou sendo espontâneo a vida se desenrola da maneira mais distante possível do que o imaginado. A gente se frustra, chora e fala besteira, uma, duas, mil besteiras pra um, pra outro, nossa, e quantas coisas são esquecidas? E as distrações? A desatenção? O stress? Ou qualquer outra coisa, sai sempre tudo diferente, quase errado. As pessoas encantam e desencantam em frações de segundos, existe a culpa que pesa, joga os ombros pra baixo ou pra cima forçando pra que possa carregá-la, tem sempre alguém na primeira esquina, ou na segunda que te aponta, não de propósito, mas por estar nesses entre meios também de erros da vida. A coisa é, pedir desculpas e seguir em frente, sempre. Eu podia morrer de remorso, mas o que me salva foi sempre a vontade de acertar, mesmo sendo esta a principal causa das coisas se atrapalharem, vontade de acertar. E sabe lá se um dia não acerto, não? É tão difícil se desvencilhar destes maniqueísmos e destas fórmulas de ser humano tão construídas e tão gastas, mas que são tão insistentes, tão impregnadas de formas e modos, há um medo de romper com isso e ser confundido com algum termo médico que foi feito em cima de números e padrões. Essa coisa tão biológica, tão fria e tão distante do universo que pulsa em cada um, e que machuca ás vezes, explode, uma explosão de força quase criadora, quase destrutiva. O jeito é assumir a taquicardia diária, e que o monstro pode ser você sim, tão cretino e sujo quanto tudo que se despreza. Tão corrompido quanto a coisa que se tenta combater pelo mesmo motivo. Não só de heróis e complexos de Joana D ´Arc se vive, não? As coisas se transformam, todos os dias, o que fazia sentido se esvazia, o macarrão fica mais impregnado de molho no dia seguinte e assim vai. Mudam. O que se lembra é totalmente duvidável, a memória tem uma questão tão afetiva. Se revivem as sensações, e nossa, geralmente são exageradas. Tenho medo de quem não exagera nas memórias. Já nem me importo se foi exatamente daquele jeito, mas se conhece as pessoas por como elas contam as coisas, acredito muito nisso. É a portinhola pro mundo particular. Ás vezes vem a dúvida existencial se aquilo tudo existiu de verdade, Senhor o mundo é inventado. E é. E mesmo assim insistimos em nos sentir culpados, cabisbaixos, frustrados e deslocados de não seguir uma cartilha que de nada se parece com o que é realmente ir vivendo, ou passeando ai pelo mundo. Mas como a gente não se mostra do avesso, nem vomita o estômago que nem a estrela do mar pra mostrar tudo o que se tem e os complexos mecanismos que temos pra ser como somos, o jeito é pedir desculpas, todo dia, toda hora, pelo desajeito, pelas explosões, pelas palavras soltas pelo ar, pela ausência, distração, pelos medos, por ser, por não ser e por muitas outras coisas. Há uma crônica, das que muito gosto que traz um dito popular " Viver é falar de corda em casa de enforcado". Pra quem fala, atenção, pra quem escuta, paciência.
Pra quem vive, coragem.
Pra quem vive, coragem.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Porque sou tão difícil?
Porque
sou
tão
tão
tão difícil
Até quando esse descompasso?
Até quando?
Até quando?
Até quando...
Vale não pertencer?
estar em lugar nenhum?
em lugar nenhum
com ninguém, nunca
a estranha vontade de
repelir
não me envolvo
conheces, metade
sou tormenta
tão difícil
não há espaços
aqui
não pra mim.
Porque
sou
tão
tão
tão difícil
Até quando esse descompasso?
Até quando?
Até quando?
Até quando...
Vale não pertencer?
estar em lugar nenhum?
em lugar nenhum
com ninguém, nunca
a estranha vontade de
repelir
não me envolvo
conheces, metade
sou tormenta
tão difícil
não há espaços
aqui
não pra mim.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Eu sei que há um cansaço em atender o telefone já de noite, e do outro lado ouvir minha voz embargada pelos mesmos motivos. Entenda, meu amor, a aflição surge de uma estranha sensação de pequenice com relação ao mundo, e o medo de não encontrar sua mão quente do outro lado da mesa para segurar quando as coisas ficam instáveis. Me perdoe, mas sou um tanto antiquada, irracional e infantil, presa no mundo em que construí e esperançosa de que as coisas surjam da forma que calculei. Sou uma criança quando aprende equações, iludida de que depois disso é possível resolver qualquer incógnita. Falo coisas sábias, faço caras concentradas, até trabalho, mas me dispo dessa maturidade em segundos. Sou bicho assustado com o mundo e o corpo que aqui se transformou ainda se faz tão desconhecido como astronomia pra maior parte das pessoas. Só lido com o que é externo a mim, meu amor, me tornando um alvo fácil a ser atingido, baixo a guarda, me despedaço em infinitos fragmentos dentro de mim que ficam difíceis de encaixar. Há tédio e desesperança e incômodo que aumentam com a grandiosidade das coisas. Me diz, como faço para não me afogar dentro de mim? Dou fortes braçadas para o alto, e estar com seu corpo quente são breves respiros antes de recomeçar a pesar e afundar nos espaços. Alice chorou tanto onde estava que, quase como castigo, as coisas submergiram e ao seu redor tornou-se mar. É o mar que, quase sem querer, te ponho pra navegar junto comigo. Há um suspiro do outro lado da linha, e do meu, a tentativa de me fazer acreditar que não quero, que já tanto faz se você vai estar do outro lado da mesa e que eu odeio sua mão quente em cima do meu couro frio. Queria te bater, porque eu perco o total controle da conta e só caio em abstrações, e quando juro na janela que queria nunca ter te conhecido, é quando percebo o quão seria infinitamente mais infeliz. Entenda, meu amor, quando estiveres cansado do outro lado da linha, não sei lidar comigo, me dói pensar que um dia, eu posso não te ver mais do outro lado da mesa com seu olhar de reprovação diante alguma postura minha. É inevitável não pensar quando nos damos conta da finitude das coisas, e como é frágil, determinante e dolorosamente bom encerrar com os jogos e aos poucos oferecer as pequenas misérias reais que se tem.
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