quarta-feira, 30 de maio de 2012

Diálogo

-Mãe, mãe porque você está chorando? Mãe, me responde, me responde porque você está chorando tanto? Mãe, mãe me diz.

Voltou os olhos marejados pra mim, olhou pra cima e secou os olhos e depois secou as mãos no avental.
- O mundo é tão grande, querido.

É mãe, eu sei. E você insiste em dizer que tenho tudo que preciso aonde estou.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ás vezes, sei lá. Eu fico assim, em constantes devaneios, é como se de repente tudo no mundo fosse muito novo e me demandasse muita atenção, e ai me perco e fico longe, maior parte do tempo estou longe, fico não sei, sabe, assim meio fantasiando as coisas e inventando infinitas situações e questões e respostas só pra sentir que eu vivo muito mais do que vivo de verdade, fico no meu devaneio sendo tudo que não sou, e exibo pra mim mesma, sou feliz nestes devaneios, posso ser o que quero e ninguém se intromete ou dá opiniões que não pedi. A única coisa é que tenho o terrível hábito de divagar assim, a qualquer momento, então ás vezes rio em momentos que não são engraçados e as pessoas se irritam, pois percebem que em momento nenhum ouvi o que falavam. Não ouço o que falam, ás vezes no meio sinto um pouco de tédio e logo algum ponto me chama e me afoga em infinitos sentimentos que nunca compartilho, eu até tento, mas acabo não sendo muito entendida e aqueles olhos inquisitivos ficam te medindo e tal, na real sou muito sozinha, deve ser por isso que me distraio fácil, sou sozinha, compartilho poucas coisas para outras pessoas, compartilho muito comigo, mas sou de difícil trato, Senhor como sou, deve ser por isso que invento tantas coisas pra mim. Sei lá, ás vezes fico assim meio inquieta, duvido muito do mundo, lembro de coisas que não são e esqueço algumas formas conhecidas, porque substituí por alguma que na minha cabeça tinha mais lógica. Não sei, o mundo me entedia um pouco.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

É por gostar tanto que se mantém em pé. Encaixa cada pedaço numa perfeita verticalidade, cada parte da coluna para não se deixar tombar. E assim se mantém em processo de doação até se machucar, e até tudo aquilo que retirou fazer falta.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Com sua licença, Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci um anjo desatento
Desses, que se distraem no primeiro som
Me olhou e infelizmente
esqueceu de me abençoar com qualquer coisa

Numa situação financeira desagradável
ganhei roupa e ganhei sapato
Mas a velha e boa fralda faltava, e fiquei assim enrolada na merda
até que encontrassem uma farmácia

Merda é uma questão teológica
E eu já do divino ventre entendia que
para ser humana
a merda não me abandonaria

Aprendi cedo, a destapar o corpo e por o umbigo no sol
e cedo aprendi a ter vergonha
mas não tão cedo aprendi
que esconder-se na vergonha é mais feio que não tê-la

Fiz da solidão o meu presente
como já dizia grande filósofo
Só esqueci de constatar que o presente do pensador
só era possível sendo miserável

Me recosto no canto e vejo
braços pernas bocas
numa dança desconexa
que meu corpo não participa

Danço sozinha
algum ritmo estranho, danço assim
de olhos fechados tateio no escuro
buscando sentido pra tudo isso.

De falar do processo

Fazendo um grande resumo, existe uma passagem interessante da escultura neoclássica para as experimentações que dariam o primeiro engate pra pensar em uma manifestação tridimensional moderna. Os grandes murais neoclássicos, além de estarem presos a uma narrativa histórica, que acomete a todos os seus personagens representados, mantém tudo preso à sua superfície. É uma existência quase que pela metade, e se quisessem mostrar a tridimensionalidade do corpo, as partes eram seccionadas em 2, 3, para se ter a noção de um todo. É Rodin, quem começa a modificar esta situação criando personagens que, mesmo fazendo parte de um mesmo contexto, pareciam lidar com aquilo com extrema particularidade. Eram independentes daquele espaço que os ligavam, e ali tínhamos corpos que se projetavam para fora, que pareciam que saiam da parede e aos poucos iam se criando, mergulhavam no espaço, desprendidos de qualquer realidade anatômica, existindo quase que para si apenas. E as imperfeições das esculturas começaram a ser menos mal vistas, pois faziam parte de um processo.
As obras do neoclássico são por excelência esteticamente atraentes. É o tipo de obra que as pessoas geralmente consideram agradáveis de se observar, aquele ideal antigo retomado em cada parte simetricamente representada. Mas tem uma coisa que me incomoda em observá-los. É engraçado que, falar que alguém parece uma representação desse período é um elogio e tanto, não é? Parecer essas musas, ou até mesmo ter o porte dos homens, tudo lindo. Mas tem algo relacionado com o tempo que me incomoda. Tudo que está ali é estático. Pertence à esfera do inalcançável. Uma sensação claustrofóbica me apodera, só de imaginar-me presa naquelas paredes, mas ao mesmo tempo, até um certo momento da minha vida era o que eu queria. Deus me livre, mesmo cheio de espirituosidade, me parecer com uma das mulheres de Picasso ou de Gauguin. No máximo ser uma figura de Seurat, na esperança de poder me desmanchar assim, sem querer, num olhar cheio de vesguice. Mas estou ali na parede, sustentada por uma camada concreta com milhões de figura, e nós na mesma história. Mas não sei, não quero mais fazer parte deste roteiro. Talvez em um chá com uma escultura de Rodin, esta me conte que as marcas são inevitáveis pra poder se deslocar daquele espaço. " É o processo", diria com uma expressão reflexiva , bebericando uma gota de chá que pingava da ponta de seu dedo. É o processo. Existir em si. É um tanto óbvio, mas é difícil. Alguém te mostra a estrutura e você acredita que é ai que tem que ficar. Mas ai surgem outras possibilidades, mas no final das contas dá na mesma não é? Afinal a desestrutura também parte de uma estrutura. No final nem Seurat, nem Gauguin, nem Rodin, Picasso Matisse Pollock I-N-G-R-E-S. Preciso urgentemente inventar uma coisa minha, para que as extremidades do meu corpo passem a ter contato com o ar e não com uma estrutura que me sutente, mas ao mesmo tempo me engole. Porque pode ser, não pode? Não dá pra saber se a figura brota ou adentra a pedra. Nunca se sabe, vou adentrar essa liquidez moderna, só vou lidar com o que é meu.
Balzac com suas roupas movimentadas no metal duro me observa.É o processo...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Supermercado

Foi no mercado. Na parte da feira.
Haviam frutas variadas, e aquele colorido anunciava que haviam tido boa safra desta vez. Frutas em demasia, grandes, gordas, tilintando alegremente nas prateleiras, quase em um comportamento humano de se oferecerem, eram assim que estavam.As bancas haviam sido divididas por cores, não tipos, era uma grande palheta alimentícia no meio daquele cubo meio concreto e meio metal.
Em um canto, perto das frutas vermelhas, havia uma garota parada. Era meio franzina, meio branco, mas tinha algo nos olhos que a tornava interessante. Talvez fosse a forma que ela olhava as ameixas. Eram ameixas lindas, bem redondinhas e avermelhadas, empilhadas uma em cima da outra, e de vez em quando rolavam de cima da pilha, assustando a garota e tirando-a por momentos de seu transe. Aquela garota era um barato, sabe, legal mesmo ficar olhando, ela devia achar que ninguém reparava nela, então acabava tendo uns tiques espontâneos, sabe, desses que a gente geralmente tem quando está planejando algo muito importante. Em um gesto furtivo agarrou uma das ameixas. Não teria nada de espetacular no fato, se não fosse a forma como a agarrou. Estava claro que ela não compraria ameixas, queria apenas uma, apenas aquela que como um tesouro ela segurava na palma da mão. Era uma ameixa bem redondinha, com um cabinho mostrando-se timidamente se olhasse direito. Cabia na palma da mão da garota, numa concha perfeita. Parecia suculenta, por como a garota apertava de leve aquela fruta, fechando levemente os olhos a cada apertão. Passava de uma mão pra outra, sentindo com a ponta dos dedos a superfície lisa e avermelhada. Um pouco tensa, olho para os lados para ver se alguém observava, se alguém percebera o que estava acontecendo ali. Seu rosto relaxou, e a nudez dele foi coberta por uma vasta cabeleira, ela desmanchara o rabo de cavalo. Com a fruta ainda na mão, cuidadosamente levou-a perto do rosto, e a cheirou vagarosamente. Eu não podia me mover. Segurou firme e levou-a perto da boca. Encostou os lábios, colocou a ponta da língua, e com uma ousadia terrível mordeu a fruta, espirrando seu sumo para todos os lados.
Foi a glória.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Foi lá e acendeu mais um cigarro. Tragava daquele jeito engraçado de quem está aprendendo a fumar, sabe, quando você solta a fumaça e ela se espalha pra todos os lados? Ela tentava discreta piscar rápido pra eu não ver que a fumaça foi no seu olho e ardeu, mas na verdade não sei se era bem isso ou se ela só não queria mostrar que queria chorar. As pessoas fazem caras engraçadas quando não querem chorar, ficam se torcendo em caretas, achando que passam super desapercebidas com aqueles olhos afetados, e quando olham pra cima então, pra lágrima não escorrer? Eu acho massa, até dá vontade de rir, mas é chato, então eu coloco a língua no céu da boca pra segurar o riso e me concentro nisso e passa, funciona juro. Nossa, eu me desconcerto com gente chorando, não gosto de ver ninguém chorando puta merda, me deixa mal, e viro uma completa inútil, nunca sei o que fazer quando a vontade de rir passa. Mas essa ai não chorava nunca, só fumava. Um atrás do outro. Cheirava bem a cigarro, e apestava todos os cômodos, isso me deixa meio puta, mas eu abstraio, afinal não ia ter o que fazer mesmo. Eu fico cheirando as coisas depois, e corro que nem uma imbecil com um sprayzinho, esses que fazem tshiii tshiii e soltam aquele cheiro de detergente genial. Detergente tem um cheiro de assepsia que me deixa felizona. Nossa eu gostava mesmo dela com aquele cigarrinho andando pela casa, eu tinha vontade de falar, mas ela está sempre muito compenetrada na vida dela, não ia atingi-la de qualquer jeito, então me propunha a ouvir até me entediar. Ai só presto atenção no cigarro, e aquela voz amacia na fumaça que vai dançando pelo ar. Vai montando um monte de coisa até que some, desmancha no ar e nem é sólido. Uma vez fiquei zonza acompanhando com os olhos as espirais. Uma vez eu li que o universo é espiralado e todas as energias se manifestam em espirais para que assim, as coisas possam se enrolar e desenrolar. Se isso for verdade, o universo estava ali, saindo da ponta da extensão de seus dedos cheios de fumo, se desenrolando naquela pequena porção de espaço entre o meu corpo e o dela, mas de tão compenetrada em si ela não viu nada.
Eu também não contei.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Indecisão

Mas há vida!...não, não, isso não é um incentivo muito bom...
Mas há o amor...nossa, menos, dores irremediáveis...
Mas há os sonhos...só que nesse caso, gastaria o resto meu tempo dormindo, como já faço normalmente
Mas há o real...que dói
Mas há...há...mas há alguma coisa.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sentou na ponta da cama, exausta, e baixou os olhos para as pontas dos dedos. Aquilo me irritava, muito. Olhou para algum canto que eu não podia enxergar e voltou a olhar as pontas dos dedos. Afinal, o que deveria de haver de tão genial na porra das pontas dos dedos?
Ela era bonita, mas algo não deixava isso aparecer. Tinha uma expressão que a enfeiava, talvez fosse aquela cara de sonsa, aquele jeito de falar e aqueles gestos de quem pede desculpa por tudo, até pela existência. Devia ficar o tempo todo "...perdão por existir, eu faço o meu melhor, mas não consigo...", como deprime. Enxugou vagarosamente algumas lágrimas que insistiam em brotar e tentou falar alguma coisa. Tinha os olhos marejados e algumas marcas, não sei se de tempo ou de desespero, que contornavam aquelas duas bolas aguadas. Quando finalmente entendi o que murmurava, era algo como uma reclamação sobre o infortúnio de sua vida, mas não havia peso, é como se aqueles pedaços invisíveis de quarto lhe contassem alguma coisa que eu não via. Olhei a merda dos dedos dela a hora que ela baixou o olhar de volta, e fiquei esperando abrirem-se caras naquelas pontas, tipo mini gente mesmo, que dissessem essas coisas que a gente quer ouvir quando muito aflitos, alguma coisa reveladora sobre o universo, e que as coisas tinham sim um sentido, tudo, tudo tinha um sentido oculto, até mesmo o contrário valia, dedos que contam como o mundo vai explodir dentro de dias, e não importaria nada do que foi feito e dito, porque tudo vai virar poeira cósmica, mas não. Eram só dedos, dedos bem idiotas com metade do esmalte só, e a pele maltratada de fazer serviço, aquela pele dura que machuca quando se vai fazer carinho no outro, nem pra isso servia. Ela se levantou e voltou a limpar as coisas. Abaixou-se para limpar debaixo da cama, tinha muito pó. Minhas coisas tem muito pó, anos de pó, não gosto de mexer nelas, sempre encontro alguma coisa, algum bilhete, foto, carta, poema e isso me deixa com saudade, e não ando em estado de ter saudade, eu fico louca, mas ela estava lá limpando e mexendo em tudo que era meu, me perguntando o que servia ou não. Sei lá, nada servia, me perdi pensando se eu também estaria com pó enquanto a olhava, eu tenho essas coisas de me guardar também, me enforno em alguma gaveta minha e esqueço de limpar, e ai vinha alguém pra revirar tudo. Tenho dó de vê-la no chão, mas não tenho a mínima vontade de ajudá-la. Ela merece, está no lugar certo, no chão, com esse arzinho e esses dedinhos, e depois ia embora e dizia " Fica com Deus, filha". Não sou sua filha, mas só tinha vontade de dizer, odeio que me peçam pra ficar com Deus, mesmo que seja expressão, ele que deveria estar comigo, não eu ter que procurá-lo. Essa ai deve ter tido alguma revelação, ou acha que teve, por isso é tão conformada, quando ia desabar de chorar, tipo criança, se segurava toda e fingia ter alguma dignidade, olhava pros cantos e se recompunha, seria incrível mas esperança me deixa um pouco deprimida. Nossa, ás vezes queria sentar com ela, tomar aquele chá barato e pedir pra que por favor, ela me contasse o que tanto os espaços e a ponta dos seus dedos lhe diziam, eu faria qualquer coisa pra saber o que eles dizem, porque ver além e acreditar em algo, apesar de deprimente, a fazia bem melhor que eu.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sem título

A felicidade faz parte de um sonho, é como se fosse um farol que nos mostra o caminho a seguir quando nos perdemos no emaranhado da vida. Mas é sonho.
Cheguei a conclusão de que eu nunca vou ser feliz, dentro dessa ideia que fazem de algo ser bem sucedido e leve, não faz parte de mim e não compartilho desse sonho. O que me motiva, é saber que, apesar de tudo que há de ruim, e de toda dor que insistentemente carrego ( dores de grau 8, diariamente), é que de alguma forma, se sobrevive. A felicidade não é o mais importante, o interessante é saber que não se sucumbe e o alto grau de resistência que temos a dor, e que esse grau só tende aumentar. A carne rasgada se sutura, partes quebradas se regeneram, sentidos perdidos se desenvolvem outros. A capacidade de adaptação é o que nos impulsiona a levantar todo dia, respirar fundo e começar tudo de novo.
É entender que apesar do sonho, a realidade é muito mais interessante.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Carrego em mim o peso de alguém que há muito busca algo, do qual já nem recorda o que é. Me divido em infinitos passos dentro de mim, indo de um lado pro outro, nessa busca incessante, atrás de alguma prova irrefutável que seja suficiente para justificar essa perda que se faz tão presente. Essa ausência tão amarga, perceptível em cada parte do meu corpo, faz com que eu me preencha com o outro, em míseros minutos de falsa plenitude, pois a companhia já não se faz suficiente para abrandar tamanha agitação.
Na verdade é com o outro que a solidão apresenta-se ainda maior, e a ponte que me une ao mundo é substituída por imensos muros, vem como uma proteção.
O medo de sentir qualquer algo mais forte me destrói muito mais do que senti-lo. O sofrimento de não sofrer é infinitas vezes maior. É o limite entre vida e sobrevida.
A verdade é que muito me acostumei nessa sozinhez, mas comecei a ter medo dos pensamentos que surgiram em mim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pensamos em situações e contextos para que de alguma forma exista uma organização em tudo o que estamos pensando, porque assim, cria-se uma expectativa de que tudo aquilo que você pensa seja exposto de forma atraente ao outro. Nem importa se o que sentimos é dessa forma mesmo, pode até ser inventado, mas queremos ser vistos.
Escolhemos as palavras e as colocamos nos lugares certos. Alguns erros são até bem aceitos, questão de personalidade.

Um grande circo sentimental.






sábado, 3 de dezembro de 2011

E já tem tanta terra em cima de mim, que já não sei se cavoco para cima ou para baixo. Mas pra qualquer lado é só terra. Eu só queria poder ficar parada, pois tenho um cansaço acumulado que protesta em todos os meus músculos. Eu só queria ficar parada e pensar um jeito melhor de sair daqui, mas tenho medo do escuro.