terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Indecisão

Mas há vida!...não, não, isso não é um incentivo muito bom...
Mas há o amor...nossa, menos, dores irremediáveis...
Mas há os sonhos...só que nesse caso, gastaria o resto meu tempo dormindo, como já faço normalmente
Mas há o real...que dói
Mas há...há...mas há alguma coisa.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sentou na ponta da cama, exausta, e baixou os olhos para as pontas dos dedos. Aquilo me irritava, muito. Olhou para algum canto que eu não podia enxergar e voltou a olhar as pontas dos dedos. Afinal, o que deveria de haver de tão genial na porra das pontas dos dedos?
Ela era bonita, mas algo não deixava isso aparecer. Tinha uma expressão que a enfeiava, talvez fosse aquela cara de sonsa, aquele jeito de falar e aqueles gestos de quem pede desculpa por tudo, até pela existência. Devia ficar o tempo todo "...perdão por existir, eu faço o meu melhor, mas não consigo...", como deprime. Enxugou vagarosamente algumas lágrimas que insistiam em brotar e tentou falar alguma coisa. Tinha os olhos marejados e algumas marcas, não sei se de tempo ou de desespero, que contornavam aquelas duas bolas aguadas. Quando finalmente entendi o que murmurava, era algo como uma reclamação sobre o infortúnio de sua vida, mas não havia peso, é como se aqueles pedaços invisíveis de quarto lhe contassem alguma coisa que eu não via. Olhei a merda dos dedos dela a hora que ela baixou o olhar de volta, e fiquei esperando abrirem-se caras naquelas pontas, tipo mini gente mesmo, que dissessem essas coisas que a gente quer ouvir quando muito aflitos, alguma coisa reveladora sobre o universo, e que as coisas tinham sim um sentido, tudo, tudo tinha um sentido oculto, até mesmo o contrário valia, dedos que contam como o mundo vai explodir dentro de dias, e não importaria nada do que foi feito e dito, porque tudo vai virar poeira cósmica, mas não. Eram só dedos, dedos bem idiotas com metade do esmalte só, e a pele maltratada de fazer serviço, aquela pele dura que machuca quando se vai fazer carinho no outro, nem pra isso servia. Ela se levantou e voltou a limpar as coisas. Abaixou-se para limpar debaixo da cama, tinha muito pó. Minhas coisas tem muito pó, anos de pó, não gosto de mexer nelas, sempre encontro alguma coisa, algum bilhete, foto, carta, poema e isso me deixa com saudade, e não ando em estado de ter saudade, eu fico louca, mas ela estava lá limpando e mexendo em tudo que era meu, me perguntando o que servia ou não. Sei lá, nada servia, me perdi pensando se eu também estaria com pó enquanto a olhava, eu tenho essas coisas de me guardar também, me enforno em alguma gaveta minha e esqueço de limpar, e ai vinha alguém pra revirar tudo. Tenho dó de vê-la no chão, mas não tenho a mínima vontade de ajudá-la. Ela merece, está no lugar certo, no chão, com esse arzinho e esses dedinhos, e depois ia embora e dizia " Fica com Deus, filha". Não sou sua filha, mas só tinha vontade de dizer, odeio que me peçam pra ficar com Deus, mesmo que seja expressão, ele que deveria estar comigo, não eu ter que procurá-lo. Essa ai deve ter tido alguma revelação, ou acha que teve, por isso é tão conformada, quando ia desabar de chorar, tipo criança, se segurava toda e fingia ter alguma dignidade, olhava pros cantos e se recompunha, seria incrível mas esperança me deixa um pouco deprimida. Nossa, ás vezes queria sentar com ela, tomar aquele chá barato e pedir pra que por favor, ela me contasse o que tanto os espaços e a ponta dos seus dedos lhe diziam, eu faria qualquer coisa pra saber o que eles dizem, porque ver além e acreditar em algo, apesar de deprimente, a fazia bem melhor que eu.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sem título

A felicidade faz parte de um sonho, é como se fosse um farol que nos mostra o caminho a seguir quando nos perdemos no emaranhado da vida. Mas é sonho.
Cheguei a conclusão de que eu nunca vou ser feliz, dentro dessa ideia que fazem de algo ser bem sucedido e leve, não faz parte de mim e não compartilho desse sonho. O que me motiva, é saber que, apesar de tudo que há de ruim, e de toda dor que insistentemente carrego ( dores de grau 8, diariamente), é que de alguma forma, se sobrevive. A felicidade não é o mais importante, o interessante é saber que não se sucumbe e o alto grau de resistência que temos a dor, e que esse grau só tende aumentar. A carne rasgada se sutura, partes quebradas se regeneram, sentidos perdidos se desenvolvem outros. A capacidade de adaptação é o que nos impulsiona a levantar todo dia, respirar fundo e começar tudo de novo.
É entender que apesar do sonho, a realidade é muito mais interessante.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Carrego em mim o peso de alguém que há muito busca algo, do qual já nem recorda o que é. Me divido em infinitos passos dentro de mim, indo de um lado pro outro, nessa busca incessante, atrás de alguma prova irrefutável que seja suficiente para justificar essa perda que se faz tão presente. Essa ausência tão amarga, perceptível em cada parte do meu corpo, faz com que eu me preencha com o outro, em míseros minutos de falsa plenitude, pois a companhia já não se faz suficiente para abrandar tamanha agitação.
Na verdade é com o outro que a solidão apresenta-se ainda maior, e a ponte que me une ao mundo é substituída por imensos muros, vem como uma proteção.
O medo de sentir qualquer algo mais forte me destrói muito mais do que senti-lo. O sofrimento de não sofrer é infinitas vezes maior. É o limite entre vida e sobrevida.
A verdade é que muito me acostumei nessa sozinhez, mas comecei a ter medo dos pensamentos que surgiram em mim.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pensamos em situações e contextos para que de alguma forma exista uma organização em tudo o que estamos pensando, porque assim, cria-se uma expectativa de que tudo aquilo que você pensa seja exposto de forma atraente ao outro. Nem importa se o que sentimos é dessa forma mesmo, pode até ser inventado, mas queremos ser vistos.
Escolhemos as palavras e as colocamos nos lugares certos. Alguns erros são até bem aceitos, questão de personalidade.

Um grande circo sentimental.






sábado, 3 de dezembro de 2011

E já tem tanta terra em cima de mim, que já não sei se cavoco para cima ou para baixo. Mas pra qualquer lado é só terra. Eu só queria poder ficar parada, pois tenho um cansaço acumulado que protesta em todos os meus músculos. Eu só queria ficar parada e pensar um jeito melhor de sair daqui, mas tenho medo do escuro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sem título

Não são, ainda
mas vão, com toda certeza
Mas se não vão, mantenho que não são
É preciso estar pra ser, ou ao contrário?
O caminho é ir, ou fazer?
Quem constrói, o ser?
Quem julga,eu?
Se forem eles, fico só, pensando o que ou pra onde?
E se tu aparece na linha de baixo
Posso pensar que depois dele, seremos nós?
Ainda cabemos na mesma frase?

Revanche

- Olha queridinha, não me olhe dessa forma, como se fosse um absurdo o que estou falando, porque às escondidas eu sei que, assim como eu, você adora cair com a boca em um pau.

Piscou meio incrédula com a afirmação, mais pelo choque de ter sido descoberta do que com o que foi dito. E agora, como zelar o que havia construído para si, se esta estrutura mostrara-se tão frágil diante da naturalidade?

sábado, 5 de novembro de 2011

Da busca

Hoje acordei com vontade de escrever algo bonito.
Queria contar como me sinto, mas já desisti porque sofro de auto sabotagem. Eu tenho alguma coisa com relação a felicidade, que eu sempre acho que não mereço estar bem. Terapia, corre pra ela, mas sentar e pensar em angústias é o que eu faço de melhor. Senhor, o mundo me angustia, a existência me causa tal problema que sonho constantemente em ser uma planta. Falando em sonhos tive um sonho muito maluco, onde, em uma roda enorme, várias pessoas contavam seus problemas, e com todos eles eu me identificava, mas o das pessoas eram super potencializados, e então eu me sentia mal por me sentir mal diante do quadro deles, mal e frustrada, afinal, o sonho era meu! Eu deveria ser a vítima, não é? Meu sonho, atenção pra mim. Meu terapeuta dizia ( e nele eu acredito, piamente, como uma entidade superior que veio me guiar, amém), que todas as pessoas que aparecem em nossos sonhos somos nós, dentro de uma faceta, ou personalidade, ou sei lá o que, que não acessamos acordados, ou algo parecido com isso. Não prestei real atenção no resto da frase, gosto muito de saber que sou eu, e eu e eu, afinal era só o que me faltava, ser coadjuvante até no meu sonho. Enfim, complexo de maria madalena, preciso de muita atenção pra me sentir bem, então resolvi tentar um processo contrário:
Sozinhez. Ou o máximo dela. Comecei a fazer caminhadas sozinha, sem música, sem livros. Estar em espaços fechados sozinha, pouco conversar, pouco contatar. Me percebi respirando atônita, e um corpo que anda um tanto destrambelhado e aflito, e juro, desespero é latente e visível. Sabe aquele sonho de ser planta? Pois é, descobri que sou quase. Penso muito, de maneira negativa pois é um pensar inerte ( Newton, sabe?), atravanquei meu caminho com pilhas de coisas, que eu, só eu posso limpar. E eu preciso estar sozinha, acho. Tem gente que a gente gruda que nem encosto ( exu, vampiro, demônio), e o ruim é quando você se percebe esta entidade maligna, mesmo que inconsciente. Pra não apanhar de espada de São Jorge, corto o cordão umbilical.Um por um. Amor sufoca, se doente. Eu estou doente.

Quarentena...

Hoje eu acordei com vontade de escrever algo bonito. Pensei no meu sonho, pensei no meu dia, pensei no que eu vi, pensei no parque, pensei em mim. A indiferença é minha.

Diagnóstico: Eu sofro de descrença.

Eu presto atenção na minha respiração. É pequeno, mas vital pra me lembrar que eu pertenço aqui ainda.

O bonito: Alguma coisa em mim ainda resiste, em algum lugar. No meio do caminho eu vi um ninho de passarinho, com um monte de passarinho, eu chorei, escondidinha e DISCRETA. Tem coisas que ainda insistem em nascer...
Está faltando eu, e já me mostro bem atrasada.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da perda

Tinha um bichinho o qual amava muito. O guardava no peito, para carregá-lo junto comigo pois sofria na sua ausência. O apertava sempre com muita força contra meu peito, querendo que ele entrasse dentro de mim, até que um dia, num acesso de amor eu matei meu bichinho sufocado. Eu percebia seu incômodo, mas o amava muito para soltá-lo. Cuidei com sofreguidão daquele corpinho aplastado, e dormi as primeiras noites com ele do meu lado, achando que se ele me ouvisse chorar ele desistiria de morrer, e voltaria barulhento.

Mas não veio.

Vencida eu enterrei meu bichinho no canteiro do jardim. Cavei com uma colher a tarde toda aquela terra posta articialmente dentro de uma caixa de cimento, cavei até criar um espaço bem maior do que o corpo do bichinho, pois o via muito grande, de verdade. Embrulhei-o em um paninho que usava no cabelo e joguei terra por cima. Joguei flores por cima. Deitei meu corpo por cima como uma viúva prematura, experimentei a terra da qual ele fazia parte, pois era a forma que eu encontrei de ele estar dentro de mim.

Tempos depois nasceu um matinho aonde eu enterrei meu bichinho. Com uma alegria que mal cabia no meu corpo, eu explodi de emoção e comecei a colhe-los. Ele deve ter ficado bravo no começo, mas me ouviu chorar e encontrou forma de desmorrer. Colhi todo aquele corpo novo do bichinho, para ele estar perto de mim.

Anoiteceu.

E encontrei as mudas mortas em cima da mesinha. Devolvi da onde nunca deveria ter tirado.
Nunca mais iria fazer parte de mim.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chegou naquela pressa em meio a entre sorrisos de desculpas por não acompanhá-los. Fazia sem um pingo de remorso, e com um pouco de pressa, pois já começavam aquelas borboletas costumeiras do pré-encontro que ás vezes escapam, quando ela distraída olhava pela janela do metrô. Fazia Sol ainda.
Chegou em tempo, naquele passo alegre de quando os caminhos se abrem em flores, cantarolou, prendeu os cabelos com meias tranças assimétricas e cuidadosamente marcou os olhos. Foi no meio de uma dança que o horário gritou avisando que já havia pouco tempo terreno talvez, mas havia um universo no espaço de seus braços, ou pelo menos achava.
Da sua boca, escapou a primeira borboleta negra, empurrando-se com esforço para fora, dando o sinal do primeiro erro. Ela parece sempre fadada ao erro. Veio a borboleta e pousou no seu peito, abrindo suas asas vagarosamente, negra até a última penugem de seu corpo, instalou-se nela como se quisesse voltar, mas esquecera o caminho. Seus olhos pesados acompanharam o ritmo das asinhas, e depois de um longo momento, quando abertos de volta forçados pela aflição da espera só queria ficar quieta.

Pausa.

Sentiu as borboletas, uma a uma, irem caindo e batendo nas paredes do estômago com um peso estranho. Aquele meio sorriso agora eram olhos apertados ansiando por um chamado. É incrível como o universo sente o desespero, porque de tantos, ninguém podia se encontrar hoje.

Desconexão - ausência de sintonia, espaços amplos a serem percorridos sem força, pretensões secundárias.

Pausa.

Surgem então os questionamentos sem nexo, e a felicidade nela começava a ser tornar escassa. Era feliz no caminho pra casa, mas não podia mais estar lá, e não conseguia ir para outro lugar. Era feliz nos meios tempos de suas possibilidades infantis. Sonhava feito menina.

Pausa.

Alguém escuta, e ela se faz estática. Seu rosto vai ficando molhado aos poucos.

Só queria lembrar que ela estava muito bonita...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem título

Estou sempre clamando por alguém que desconheço, e deixando que minha vida seja controlada por alguém que nem sei se existe, pois é muito duro atribuir-se a responsabilidade de tudo o que acontece, muito duro...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sem título

Suave me chega
e repousa sobre mim
sua respiração arfante.
Atento.

Faz uma varredura em meu corpo, seus olhos aguados
Não ponha a sua boca em mim, penso, quando sua língua invade e rompe meus lábios cerrados
se encostam, movimentando-se no céu baixo.

Rompe esta dor, que se faz tão sólida
desflora as partes que me são secas, cuida
o que em mim é outono. Colhe as folhas e guarda

Numa caixa, como um tesouro, desses que a gente junta no caminho
tira a boca de mim, tira rápido
e só segura minha mão.